quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dia seis: Porque estás dentro?

Tuc… tuctuc

De cara voltada para a parede, calado, ouço ainda as pequenas traças em redor da débil fonte de luz amarelada. Esta balança, criando um jogo de sombras pela sala, um pequeno teatro sombrio projectado nas paredes sujas do calabouço.

É incrível aquilo que se ouve no silêncio, pequenas traças ao longe, o pequeno dançar da lâmpada no seu continuo giratório impelida pelas mesmas. Um relógio de parede que marcava presença na sala, um cair de gotas do tecto que marcava o passo ao relógio, gota a gota, salpicava o chão ao canto do calabouço de uma água turva. No tecto uma enorme manha negra húmida ia aumentando, dando a indicação de um possível cano roto a necessitar de arranjo urgentemente. Por consequentemente o ar ia-se tornando pesado e difícil de respirar com tanta humidade suja no ar. Já lá fora…não se ouvia nada, um silêncio fúnebre fazia-se sentir nos ossos, um arrepio gélido que nos abraçava roubando-nos de qualquer conforto, de qualquer sentimento feliz. Parecia estar sozinho no mundo, o último homem na terra…

Estava enganado, havia vida a desenrolar-se na rua, mesmo que esteja quase a terminar, ainda havia alguém na labuta diária, estavam os meus amigos, os meus pais a trabalhar, guardas a dormir lá fora…e alguém ao meu lado…

Não o queria admitir e pôr a culpa na minha imaginação, queria estar sozinho… Mas havia a hipótese de estar a partilhar clausura com outro detido, alguém que roubou, matou ou pior! Não me queria dar com esse tipo de gente, ladrões, assassinos, qualquer coisa. Recuso-me a ser identificado ou relacionar-me com esse tipo de gente, marcada na prisão e excluída para o resto da vida da sociedade e não queria o mesmo para mi… Havia esperança em mim. Havia? Em breve iria sair em liberdade, estava inocente! Estaria?

Tentava imaginar os meus amigos em casa do João, Patrícia e Sara no outro lado da esquadra e os outros guardas a dormir no outro lado. Então porque me sentia assim? Tão sozinho e com medo, tão pensativo na vida e na morte. Estou deitado numa cama suja de prisão, com o cabelo emaranhado numa almofada dura que nem rocha, atrás de grades, junto a uma sanita antiquada. Vestido por sombras às riscas, mascarado por uma falsa conformação…

- Então não falas? - Repetiu a voz na minha cabeça. Afoguei os meus ouvidos na almofada suja, apertei a cabeça afim de exorcizar a voz, qualquer coisa. Pára de falar comigo…

- Ok, como quiseres…peço desculpa por estar preocupado – Respondeu a si mesmo. – Mas que dia… –

Tinha conseguido silêncio, ele calara-se. Ainda ouvia-o a respirar, suspirava de vez em quando. Remexia-se na cama e fungava do nariz como se o estivesse a limpar. De quando a quando ouvia uns “ahhh” ou um praguejar baixo, estava me a afectar mais do que se estivesse a falar alto. Aquele mistério preso com ele matava-me.

- Que raio foi aquilo….não consigo perceber…deviam estar mortos… – Sussurrou baixo para si, mas incrivelmente alto para me despertar, para me abrir os olhos!

Quem devia estar morto? Respondia? Ignorava? Era inevitável fugir, ignorar, tinha de dizer qualquer coisa, a curiosidade estava a matar-me agora ainda mais, quem e o quê? Calma. Não te mostres desesperado, fala com calma…

- Deve ser a tua primeira vez na prisão… Bem, é a minha também, sabes? Mas que raio estou para aqui a dizer… –

- Q…quem – Calma, não vaciles. Não mostres medo nem insegurança, senão comem-te vivo aqui…

- AHA! Falas! Fodasse, estava a ver que não! Já estava aborrecido de falar comigo. Sou boa companhia, mas às vezes farto-me de falar com a mesma pessoa e para dizer a verdade preciso de varrer a mente de certas coisas. Raios…só de pensar naquilo…bem, está fino rapaz?

- Sim, mas… –

- Se quiseres eu calo-me! Bem, porque estás dentro…? –

- Hum? – A pergunta cliché de todos os reclusos, “porque estás dentro?”, mataste quantos? Roubaste? Drogas? Tens de ter a tua marca para saberem quem tu és, uma reputação a manter na prisa, para ser o tipo fixe e não o alvo de brincadeira no chuveiro. Impor respeito…alguma coisa para falar nos anos vindouros. “Sabes? Matei aquele tipo assim! Roncou que nem um porco “hehe”…enquanto o espetei com um ferro na cabeça…” Oh, bela ironia…

- Desculpa, é a pergunta que todos fazem, se mataste alguém, sabes? O normal, mas tu tens cara de santinho, mataste a tua família? AH! Desculpa…às vezes falo mais que a minha conta, a idade tem destas coisas, sabes? E como disse, estou aborrecido. – Estava a começar a gostar da maneira como a voz soava, quer fruto da minha imaginação ou real como eu e aquelas grades, esta voz que soava a cantiga alegre conseguiu-me roubar um sorriso. Gostava do seu tom que aumentava e de repente se calava enquanto esperava pelo fim do verso, não queria que se calasse. Era a luz da minha cela naquele momento. Fala meu bom homem.

- Matei dois homens… – comecei calmamente, sereno e sem vacilar, o ambiente tornou-se mais calmo e até as traças se calaram, com medo de mim. Todos escutaram, até o relógio lhe saltou uma pulsação.

- Eish moço…nem pergunto porquê… Porquê? -

- Eles estavam mortos… – Para quem não queria falar, estava a despejar tudo sem ninguém me perguntar, estaria a confiar nele ou a assustá-lo com segundas intenções? Respeito e reputação…

- Ah… –

- Não acredita? Não o censuro… –

- Não mais mortos que os meus… –

- …Claro –

- Ontem perdi um amigo meu… –

- Matou-o foi? – Disse com sarcasmo.

- Não, um morto matou-o… –

- Desculpe? – Virei-me de repente para ele. Diante mim estava um homem na casa dos seus 60 anos, sentado em cima da cama, virado para mim. Careca de barba por fazer, olhava agora cabisbaixo. O seu tom de voz tinha mudado e agora falava comigo num tom solene enquanto brincava com os dedos enrolando-os no lençol. Este homem de estatura baixa teria lutado contra zombies já? Onde e quando? Estaria ele infectado? Observei-o de alto abaixo, desde as suas calças pretas sujas até à sua camisola de malha da mesma cor. Tudo nele não fazia sentido, tinha uma voz jovial, mas um olhar sobre a sua anatomia tomava-o como débil, quase senil. A cara coberta de rugas, davam para contar a idade do senhor, cada ruga uma história como dizem. Uma orelha ligeiramente maior que a outra erguiam-se no escuro atentos a qualquer movimento. Não lhe via os olhos nem a boca, sentia-os pesados no entanto, do que viram e do que gritaram…

- Foi ferido por eles? – Perguntei com medo e preocupação, tinha-me dado pena o senhor, tão frágil e ao mesmo tempo um espírito forte.

- Eu? Não, não me tocaram…Fugi a tempo, merda… –

- Mas que aconteceu? –

- Bem, conheces ali a funerária ao pé das bombas de gasolina da BP? –

- Sim, mais ou menos. –

- Eu trabalho lá faz dez anos já, estava a treinar um rapazito que me vinha substituir na reforma, sabes? Era filho do patrão e estava à procura do primeiro biscate. E eu, digamos que a idade não perdoa… Estava ali a ensinar-lhe os ossos do ofício e estava no momento da preparação do corpo para um funeral, sabes? Banhinhos de esponja é o que é, não os têm em vivos, e agora morrem para os ter. Embora não os apreciassem, pobres diabos…mas –

- Até hoje… – Nem sei se disse isto a brincar ou a sério, mas o senhor que repetia sabes até à exaustão percebeu a piada e aproveitou a deixa.

- Sim, até hoje. Será que não gostaram do banho? Ah…pronto, não sei, eu tinha-me virado para molhar a esponja, acender um cigarrito e observar o gaiato, enquanto ele lavava o corpo a uma velha que tinha falecido há dois dias, ia ser enterrada hoje de manhã.. Continuando, estávamos a falar do Benfica e tal, merdas do costume, uhm, sim. Ele esfregava lá a velhota, eu virei-me, estava a ensopar a minha esponja e aproveitei para acender o cigarro. Pu-lo na boca e bufei, que bem me soube, sabes? Para mim é o elixir da juventude, olha para mim! – Sem grande animação forçou um riso e suspirou. - E foi então que ouvi um grito…virei-me o mais rápido que pude, não quis acreditar no que vi! Não estás a ver a situação rapaz, a velha estava a morder a cara ao rapaz! A VELHA MORTA! A mastigar na bochecha dele até arrancar metade da cara! – Beliscou-se a si próprio na cara e puxou para me mostrar como a carne tinha sido arrancada, imitou a explosão de sangue e acentuou o nojo com uma cara de choque.

- Ele caiu no chão a gritar e a contorcer-se de dor com as mãos na face, a velha abanava-se para cair em cima dele e eventualmente caiu mesmo em cima do rapaz, quando este pontapeou a estante do caixão. – Pausou. - Espera, estou um pouco enjoado… –

- Não é preciso continuar… –

- É sim, preciso de contar a alguém. Eu preciso saber que não estou louco! Ela em cima dele, a mastigar o resto da cara, o corpo ainda a tremer em choque, ainda ouvia a sua voz, sabes? Morria pouco a pouco, respirava com muita dificuldade e consegui ver que ele olhava para mim com os olhos esbugalhados a ficarem brancos a cada segundo passado, as veias cheias de sangue nos seus olhos tinham rebentado e sem piscar fixava-me. Mata-me, tira-me deste sofrimento, dizia ele com o olhar. Caiu-lhe uma lágrima de sangue… ele estava a implorar por ajuda! E eu não fiz NADA! Congelado como um mariquinhas! Estive ali num canto especado a olhar para aquela merda e não fiz a ponta de um corno! Foi então que comecei a ouvir batidas por todo o lado, eram os outros caixões, os outros diabos lá dentro queriam sair, batiam e grunhiam que nem porcos, abanavam-se lá dentro para atirar os caixões para o chão, alguns conseguiram! Alguns caixões abertos deixaram-nos sair, vinham a rastejar para mim! Para mim! Estavam MORTOS! …alguns vinham com a roupa de enterro, todos pipis…Outros…vinham nus, um deles rebentou os pontos da autópsia e à medida que vinha atrás de mim conseguia ver a merda que está do nosso corpo. – Com a mão esfregou a zona da caixa torácica, fez uma pausa respirando e continuou.

- Os ossos quase a saírem, ouvia-os a raspar no chão, sabes, aquele barulho quando arranhas quadros de ardósia? Esses mesmo…Mas o pior foi ver uma criança a levantar-se, Deus me ajude! Tinha morrido num incêndio, portanto tinha a cara queimada, veio a andar lentamente para mim, estendeu os braços e com a sua cara negra carbonizada grunhiu para mim, acho que me mijei todo nessa altura, não, MIJEI-ME MESMO! Foi o suficiente, atirei o cigarro para o tapete, saí da sala e fechei a porta. Barrei-a com um caixão que estava para ali, olhei para todo o lado á procura de algo para usar. Folhas, canetas, crucifixos e algumas cadeiras. Não havia nada de muito útil para me defender. Começaram a bater na porta e começou tudo a abanar, o caixão não era suficiente forte. Partiram o vidro da porta e enfiaram as mãos para me apanharem, notei um braço a sangrar…era o chavalo, que se tinha passado ali? Ele não tinha morrido? Estava cagado de medo até que me cheirou a queimado. Era o cigarro que deixei cair! Não foi preciso esperar muito, uma sala cheia de madeira, tecido e químicos? O fogo em cinco minutos tinha carcomido a sala toda, aqueles demónios estavam a esturricar e foi então que me senti tonto por causa o fumo, os químicos misturaram-se e espalhavam-se pelo ar. Comecei a ver tudo às voltas, comecei a tropeçar, os olhos choravam-me de irritação, tossia até que me deixei cair. Caí e perdi os sentidos, não antes de poder ver a cara do chavalo a roncar pela porta com a cabeça meio enfiada no vidro da porta. Olho para mim com os mesmos olhos e onde antes via dor, um grito de ajuda, via agora…nada, estavam vazios dele…

Quando acordei, estava aqui…Disseram que a casa funerária e o prédio tinham ardido completamente, muita gente tinha morrido, o dono apresentou queixas e acusou-me de ter morto o filho dele…Lá dentro encontraram os corpos carbonizados dos “mortos” e do miúdo. Fogo posto, disseram.

Merda…Se tivesse feito algo…