segunda-feira, 5 de maio de 2008

Carlos, o Bombeiro. Dia 1 - Morte doce morte...

Para a Tsuki, por ela me relembrar todos os dias de escrever. À Tsuki por ser a minha fiel leitora e analisadora. A ela!


Nome: Carlos Ferreira,

Ocupação: Bombeiro

Local: Quartel da corporação dos Bombeiros Voluntários do Montijo.

Dia Um: Morte doce morte.

Vejo uma estrada. Comprida sem fim à vista. Carros empilhados, encaixados como pequenas peças de puzzle disforme. Estão vazios. Roubados de cor e de vida, vagueio por uma maré cinzenta esborratada por ferrugem…
- Hey. HEY! Acorda pá! –
- Hum, o que se passa? – Sinto que me empurram, olho em volta atordoado, estou no carro patrulha. Estamos a andar…Olho para fora, tento confirmar o que tinha “visto”, mas estava demasiado escuro.
- Estavas a dormir acordado! –
- O quê? –
- Estavas com cara de parvo a olhar para mim que nem zombie… -
- Disse alguma coisa? –
- Sim. –
- Sim? –
- Que a tua mãe queria-me comer. –
- Meu, deixa-te de merdas…-
- Ok, ok, tou só a brincar contigo. -
- Qual a situação? –
- Dois mortos. Temos de os levar para o hospital. –
- Como morreram? –
- Gás. –
- Fuga de gás… merda. Idade? –
- Idosos. Viviam sozinhos. –
- Como é que se deixam duas pessoas assim viverem sozinhas? –
- Não faço ideia, vamos. –

Quando dei por mim, quero dizer, quando me “acordaram” já no carro da corporação a caminho do nosso destino. Não sabia para onde ia, mas não me preocupei em perguntar, então todo o percurso foi feito num silêncio pensativo, pelo menos para mim. Como é que se deixam dois idosos a viver sozinhos por mais autónomos que sejam? São seres-humanos como eu ou ali o José, mas… Mas escapa-me! Deviam ter mais alento com estas pessoas.
Tínhamos saído da comodidade das estradas e passámos para as estradas de gravilha aos solavancos, toda a calmaria foi disturbada. Já se riam no carro, ao sabor das curvas deixavam-se cair para cima dos outros, empurravam-se como crianças, mas sorriam. No entanto ninguém falava com ninguém, toda a conversa era telepática e a sirene era a única que falava bem alto com o ar sem resposta curva após curva. Comigo iam mais três rapazes, um dormitava em preparação para o enorme sono após o trabalho estar feito e os outros dois, um deles o meu caro amigo José, que me acordou, continuavam na galhofa e ignoravam o facto de os estar a olhar de cima abaixo. Coisa que fazia amiúde… Éramos todos bombeiros acabados de sair da recruta e este era um dos nossos primeiros trabalhos que envolvia mortos, sempre transportámos doentes, apagámos pequenos fogos, o básico, mas algum dia tinha de ser. A coisa era a sério agora, mas não sabia se estava pronto para ver ao vivo, porque fotos eram outras coisas… Lá chegámos… A casa situava-se numa pequena praceta, alienada num canto escuro e ocultada da luz pelas árvores lá moravam os idosos, outrora vivos, com planos para um amanhã.
Chegámos eram três da madrugada, a escuridão escondia-se como uma barata na presença das luzes dos nossos carros, ao bom estilo português, quase todas as luzes da vizinhança estavam acesas, cá fora havia um desfile de pijamas e roupões curiosos. Ao estacionar o carro pedimos à pequena multidão de pessoas que se afastassem, nos dessem espaço para trabalhar. Ainda no carro começámos a sentir o luto na rua, o frio do vento inexistente que soprava obrigou-nos a vestir o nosso casaco amarelo tradicional da Força e saltámos para fora de machado em riste. As pessoas fizeram um corredor em uníssono de respeito para a nossa passagem.
Agora tête-à-tête com a porta, sinto um calafrio de morte a puxar-me os cabelos, nervosismo talvez, a perda da virgindade. Iria ver um morto. Seria como nos filmes? Pálido, rígido…um boneco? Uma simples marioneta sem cordas estendida no chão? Estariam no chão ou na cama? E a cara deles? Estariam normais ou assustadoras? Calma, calma! Respira, pensa em algo bom, pensa no cometa. Foi giro não? Tiveste de serviço numa zona privilegiada a beira-rio, um cometa espelhado num lençol de água. Um espectáculo…

- Carlos, mexe-te! Fodasse, a dormir em pé? –
- Desculpa, desculpa…ok, vamos lá! –

- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHhhhh…… -