terça-feira, 22 de julho de 2008

Carlos, o Bombeiro. Dia 1 - Ainda sozinho...

Como um pequeno e assustadiço exército todos recuaram um passo atrás em marcha combinada, as cabeças aproximaram-se umas das outras formando uma muralha num silêncio irrequieto e os olhos escalavam o prédio tentando entrar pelas janelas. Estava tudo calado, falavam por telepatia, comentavam o grito e de olhos fitos no prédio procuravam movimento, algo que denunciasse o autor do grito estridente. Não arredavam pé dali, mesmo se as suas vidas estivessem em perigo… Portugueses, esta gente gostava de espectáculo…

Quanto a mim, o grito tinha-me deixado com pele de galinha e mesmo com todo o equipamento em cima, sentia frio… um frio que me congelava as pernas impedindo-me de avançar. Estava petrificado tal escultura de gelo, apenas os meus olhos se mexiam. Olhava para a porta ainda fechada, observava as sombras a chamarem-me, sombras de enormes chamas negras que me iriam consumir assim que entrasse e nunca mais sairia dali vivo.

- Que estás à espera? Leva esses dois homens contigo e sobe! – Gritou-me o Capitão, alguém ainda está vivo e com alma, porque não sobe ele?

Tudo me impedia de subir, o meu coração, a minha consciência, tudo menos o medo de ser despedido. Não podia perder este emprego e o meu ganha-pão, não podia ir para as ruas, não ia aguentar! Embora o meu corpo teimasse em ficar no mesmo sítio, congelado não pelo medo, mas pela sanidade, tinha de avançar. Compus o capacete e apertei o casaco. Ajustei a mascara por causa do gás e abro a porta. Dou o meu primeiro passo.

Tenho os olhos fechados, estou protegido de tudo o que puder aparecer. Não vejo nada e ninguém me vê. Tal era falsa a crença que esbarrava em tudo. Mas os olhos não estavam fechados, o prédio estava mesmo escuro, negro como a capa da morte que se aproxima de nós. As chamas aumentavam.

Atrás vêm dois colegas meus, José seguia atrás de mim apalpando o corrimão suavemente como se fosse mais uma das suas mulheres. Tratava a barra de ferro com tal carinho e respeito, esperando ser recompensado, ajudado quando precisasse. Estavam numa união de tal simbiose que nem me atrevi a tocar no corrimão. Seguia então no meio do corredor com ambos os braços abertos arrastando as luvas na parede. Não se podia acender nenhuma luz com perigo de explosão, portanto até selarmos a fuga, nada de faíscas ou então Boom! Andámos uma eternidade mais ainda estávamos perto da porta da entrada agora fechada. Não víamos ninguém lá fora devido ao vidro estar embaciado. Acendi a lanterna do meu capacete e os outros seguiram.

- E fez-se luz! Vamos lá desligar isto e ir para casa que tenho fome. Baza! – José seguiu de encontrão, ri-me porque era acolhedor ver alguém bem-disposto apesar do que se passava. Acho que nos habituamos a isto, mortes, desastres… sangue… Acho que temos de saber retirar o bom nisto tudo…

Felicidade tingida de sangue, gargalhadas de dor e sorrisos estropiados…

Carrosséis de choques em cadeia, estradas decoradas com membros, estuque de sangue, crianças… o melhor eram as crianças! Chamas! Mor-

Calma! Respiro e sacudo a cabeça para afastar as imagens grotescas que passavam como filme na minha cabeça. Estou de novo sozinho, os outros seguiram à minha frente, ouço-os nas escadas a correr até que tudo fica em silêncio. Estou sozinho… tenho como companhia a linha ténue da luz do meu capacete que se estende diante mim como um túnel de luz que vai mirrando, um túnel sem saída, sem esperança para além da escuridão. Uma pequena passagem ilusória de segurança onde ninguém podia atravessar. O fim era o inferno escuro com chamas negras que crepitavam em silêncio. Esperavam por mim…

A luz, o Sol, o fogo. Em toda a minha vida sempre vi neles segurança, um porto de abrigo, uma espada sagrada que trucidava a escuridão e tudo o que se escondia nela. Quando era mais novo brincava com lanternas a fingir que eram pequenos sabres de luz e andava com isso pelo meu quintal à noite. Era o rei da noite, ninguém podia contra mim. Eu estava com a luz. Agora estou no escuro… Não tinha o calor do Sol para me aquecer o coração e o fogo para afastar os medos de mim. Estava sozinho num paradoxo gigante. Era bombeiro e a minha missão era apagar o fogo, extinguir a luz. Fui abandonado como por castigo. Trabalho sempre de noite, o Sol abandonou-me. Sou o primeiro a entrar nas chamas, o primeiro a queimar-me, a sacrificar-me por tudo o que fiz. Um oceano de sangue e sofrimento é a minha penitência, choros de crianças enquanto lutam pelo último fôlego. Peles que se descolam como papel de parede das pessoas que outrora as vestiam. Muitas delas ainda vivas. NÃO AGUENTO MAIS! Estou no limiar da insanidade, não estou sozinho enquanto pensar assim, sinto-os a todos que morreram a arrastarem-me para as chamas negras…

Estou sozinho, falta-me o ar como se este não existisse. Está tudo tão calado. Respiro na máscara e subo o vão de escadas, todas as portas no meu caminho estão abertas, eles estiveram aqui. Grito por eles e nada, ruídos abafados, algo cai… Subo ainda e passo a correr pelas casas desertas. O Sol como um transeunte curioso espreita para dentro, estava a amanhecer…

Finalmente apanhei-os.

- O filho da mãe mordeu-me! – Disse José.

-Hum? – Respondi enquanto recuperava o fôlego.

- O velho! Está vivo, vê lá. –

- E a mulher? –

- Não a achámos. –

- Chamaram? –

- Sim, nada. –

- Onde está o senhor? –

- Com o Marques, ele está a tentar acalmá-lo… -

- Boa sorte com isso – Respondeu o outro soldado que estava encostado à parede.

- A fuga? –

- Já está. Está tudo a arejar. Vou descer. Vêm? –

- Yeah, merda. Tenho de tratar disto… está a ver esta porra? – Responde José que agarrava na mão e sugava o seu próprio sangue. Aproximou-se de mim e tirando a boca mostrou-me um rasgo na mão que esguichava sangue.

- E tiraste a luva porque? –

- Comichão! Depois o velho apareceu do nada e mordeu-me! Fodasse para isto! – Voltou a pressionar a ferido com a boca e desceu resmungando.

- Tira daí a boca, que nojo! –

- A saliva desinfecta. E eu gosto do meu sangue – Olho para mim com cara de gozo. – Sou um vampiro. Uh, vou-te morder! – Riu-se enquanto descia.

- Devias ter visto, o velho não largava a mão dele. O Marques teve de usar o machado para se meter no meio. Empurrou-o para um quarto depois, ainda não saíram. Parecia um filme de terror! Saiu um bocado de carne quando eles se separaram. E o sangue? AH! Bem, desçam rápido… - Seguiu atrás de José falando no rádio. Tudo controlado. Fuga arranjada. Sobreviventes no prédio comunicou ele.

Estou sozinho de novo, o Marques estava lá dentro com o velho.

- Marques? – Chamei. Nada…

Entrei na casa já algo iluminada, era bom ter o Sol no meu lado agora. Fui para a sala, onde se tinha dado o ataque e quando lá chego havia uma linha condutora de sangue que espirrava às paredes como um quadro abstracto. Merda, ainda saltou um bom bocado! Deve ter doido… Haviam coisas espalhadas no chão, parece que ainda houve festa cá dentro, sinais de luta violenta, olho em volta e encontro o rasto de sangue. Tal como segui a luz da minha lanterna, segui a luz brilhante do sangue que me seduzia para um quarto. Pé ante pé, preparado para fugir, abri a porta onde tudo terminava. Silêncio.

- Sargento Carlos. Fala base, qual a situação? Escuto. –

Merda, até saltei! Maldito timing! Quase que me saltou o coração!

- Fala Carlos, situação por definir base. Procuro o Cabo Marques que ainda deve estar com a vítima. Escuto. –

- Afirmativo. Escuto.

Há outra chamada no outro lado da cidade numa funerária. Outras viaturas encontram-se neste momento ocupadas ou em manutenção. Se não se importar, traga-os para baixo, está aqui o INEM. Escuto. –

- Afirmativo base… - Respondi. – Portugal e as suas belas condições… -

Desisti da lentidão, do suspense a conta gotas. Atirei com a porta contra a parede e de inicio não vi ninguém. Apenas uma cama e um monte em cima da mesma.

- C-Carlos, ainda bem que aqui estás… ele. Ele está louco! LOUCO! Tive de o matar, vês? –

- MEU DEUS, que se passou aqui? – Corri para ele que estava no chão.

- E-Ele mordeu-me… arrancou-me a orelha. Empurrei-o e ele avançou de novo para mim. Aquele som, aqueles olhos! A c-cara dele! Estava com medo e com dores! Ele cai em cima de mim, se não fosse pelo fato! Este fato salvou-me! SALVOU-ME! Atirei-o ao chão. Ele caiu! AHA… - Ria-se dementemente como um moribundo às portas do inferno. Afastei-me dele e observei o cadáver – Ergui o machado! Não o queria matar! Foi só para o ameaçar, mas rastejava, mordia-me as botas e arranhava-me as pernas, não consegui gritar. Mandei-o parar várias vezes e nada! O machado caiu-me das mãos e só parou nas costas dele! A lâmina toda espetada até ao fundo! E ELE AINDA SE MEXIA! – Aqui o riso demente aumentou de tom assustando-me, soluçava enquanto chorava baba e ranho, mas ainda se ria… – Tinha perfurado os pulmões e o filho dum demónio ainda guinchava, queria mais! Puxei o machado e ele veio atrás, atirei-o contra a parede e contra a cómoda até se soltar. Caiu na cama, virou-se para mim, tinha a cara desfeita do choque, o sangue seco escorria para os lençóis. Aquele gemido de morte seca! Um olho cai no chão e nem se importou! Olhava para mim! Atirou-se… Não aguentei… Fechei os olhos e quando dei por mim, tinha rodado e perdido o equilíbrio, escorreguei para aqui e caí. Olhei para cima e ele não se mexia mais. –

Na cama jazia no leito de sangue uma figura que outrora foi um ser humano idoso, a cara estava praticamente desfeita, mas ainda se via o esgar de horror, fome, pecado. O machado estava cravado no lado esquerdo do crânio…

- Pronto… acabou. –

- Acabou? Matei uma pessoa meu! Matei! Vou ser preso! – Nisto ele levanta-se do chão e caminha para mim. Noto na sua cara o mesmo tom de perdido do velho, os olhos esbranquiçados e a saliva não engolida adicionavam-se a este plano de horror. Ele começou a gemer e ergueu os braços na minha direcção. Abraça-me.

- Não consigo viver assim… Morreria na prisão. Não durava um dia meu. Adoro-te… - Empurra-me contra a parede e corre para a janela. Num momento está tudo calado e noutro a seguir ouve-se uma explosão de vidro. Um grito lá fora.

Estou novamente sozinho…

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Carlos, o Bombeiro. Dia 1 - Morte doce morte...

Para a Tsuki, por ela me relembrar todos os dias de escrever. À Tsuki por ser a minha fiel leitora e analisadora. A ela!


Nome: Carlos Ferreira,

Ocupação: Bombeiro

Local: Quartel da corporação dos Bombeiros Voluntários do Montijo.

Dia Um: Morte doce morte.

Vejo uma estrada. Comprida sem fim à vista. Carros empilhados, encaixados como pequenas peças de puzzle disforme. Estão vazios. Roubados de cor e de vida, vagueio por uma maré cinzenta esborratada por ferrugem…
- Hey. HEY! Acorda pá! –
- Hum, o que se passa? – Sinto que me empurram, olho em volta atordoado, estou no carro patrulha. Estamos a andar…Olho para fora, tento confirmar o que tinha “visto”, mas estava demasiado escuro.
- Estavas a dormir acordado! –
- O quê? –
- Estavas com cara de parvo a olhar para mim que nem zombie… -
- Disse alguma coisa? –
- Sim. –
- Sim? –
- Que a tua mãe queria-me comer. –
- Meu, deixa-te de merdas…-
- Ok, ok, tou só a brincar contigo. -
- Qual a situação? –
- Dois mortos. Temos de os levar para o hospital. –
- Como morreram? –
- Gás. –
- Fuga de gás… merda. Idade? –
- Idosos. Viviam sozinhos. –
- Como é que se deixam duas pessoas assim viverem sozinhas? –
- Não faço ideia, vamos. –

Quando dei por mim, quero dizer, quando me “acordaram” já no carro da corporação a caminho do nosso destino. Não sabia para onde ia, mas não me preocupei em perguntar, então todo o percurso foi feito num silêncio pensativo, pelo menos para mim. Como é que se deixam dois idosos a viver sozinhos por mais autónomos que sejam? São seres-humanos como eu ou ali o José, mas… Mas escapa-me! Deviam ter mais alento com estas pessoas.
Tínhamos saído da comodidade das estradas e passámos para as estradas de gravilha aos solavancos, toda a calmaria foi disturbada. Já se riam no carro, ao sabor das curvas deixavam-se cair para cima dos outros, empurravam-se como crianças, mas sorriam. No entanto ninguém falava com ninguém, toda a conversa era telepática e a sirene era a única que falava bem alto com o ar sem resposta curva após curva. Comigo iam mais três rapazes, um dormitava em preparação para o enorme sono após o trabalho estar feito e os outros dois, um deles o meu caro amigo José, que me acordou, continuavam na galhofa e ignoravam o facto de os estar a olhar de cima abaixo. Coisa que fazia amiúde… Éramos todos bombeiros acabados de sair da recruta e este era um dos nossos primeiros trabalhos que envolvia mortos, sempre transportámos doentes, apagámos pequenos fogos, o básico, mas algum dia tinha de ser. A coisa era a sério agora, mas não sabia se estava pronto para ver ao vivo, porque fotos eram outras coisas… Lá chegámos… A casa situava-se numa pequena praceta, alienada num canto escuro e ocultada da luz pelas árvores lá moravam os idosos, outrora vivos, com planos para um amanhã.
Chegámos eram três da madrugada, a escuridão escondia-se como uma barata na presença das luzes dos nossos carros, ao bom estilo português, quase todas as luzes da vizinhança estavam acesas, cá fora havia um desfile de pijamas e roupões curiosos. Ao estacionar o carro pedimos à pequena multidão de pessoas que se afastassem, nos dessem espaço para trabalhar. Ainda no carro começámos a sentir o luto na rua, o frio do vento inexistente que soprava obrigou-nos a vestir o nosso casaco amarelo tradicional da Força e saltámos para fora de machado em riste. As pessoas fizeram um corredor em uníssono de respeito para a nossa passagem.
Agora tête-à-tête com a porta, sinto um calafrio de morte a puxar-me os cabelos, nervosismo talvez, a perda da virgindade. Iria ver um morto. Seria como nos filmes? Pálido, rígido…um boneco? Uma simples marioneta sem cordas estendida no chão? Estariam no chão ou na cama? E a cara deles? Estariam normais ou assustadoras? Calma, calma! Respira, pensa em algo bom, pensa no cometa. Foi giro não? Tiveste de serviço numa zona privilegiada a beira-rio, um cometa espelhado num lençol de água. Um espectáculo…

- Carlos, mexe-te! Fodasse, a dormir em pé? –
- Desculpa, desculpa…ok, vamos lá! –

- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHhhhh…… -

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dia seis: Porque estás dentro?

Tuc… tuctuc

De cara voltada para a parede, calado, ouço ainda as pequenas traças em redor da débil fonte de luz amarelada. Esta balança, criando um jogo de sombras pela sala, um pequeno teatro sombrio projectado nas paredes sujas do calabouço.

É incrível aquilo que se ouve no silêncio, pequenas traças ao longe, o pequeno dançar da lâmpada no seu continuo giratório impelida pelas mesmas. Um relógio de parede que marcava presença na sala, um cair de gotas do tecto que marcava o passo ao relógio, gota a gota, salpicava o chão ao canto do calabouço de uma água turva. No tecto uma enorme manha negra húmida ia aumentando, dando a indicação de um possível cano roto a necessitar de arranjo urgentemente. Por consequentemente o ar ia-se tornando pesado e difícil de respirar com tanta humidade suja no ar. Já lá fora…não se ouvia nada, um silêncio fúnebre fazia-se sentir nos ossos, um arrepio gélido que nos abraçava roubando-nos de qualquer conforto, de qualquer sentimento feliz. Parecia estar sozinho no mundo, o último homem na terra…

Estava enganado, havia vida a desenrolar-se na rua, mesmo que esteja quase a terminar, ainda havia alguém na labuta diária, estavam os meus amigos, os meus pais a trabalhar, guardas a dormir lá fora…e alguém ao meu lado…

Não o queria admitir e pôr a culpa na minha imaginação, queria estar sozinho… Mas havia a hipótese de estar a partilhar clausura com outro detido, alguém que roubou, matou ou pior! Não me queria dar com esse tipo de gente, ladrões, assassinos, qualquer coisa. Recuso-me a ser identificado ou relacionar-me com esse tipo de gente, marcada na prisão e excluída para o resto da vida da sociedade e não queria o mesmo para mi… Havia esperança em mim. Havia? Em breve iria sair em liberdade, estava inocente! Estaria?

Tentava imaginar os meus amigos em casa do João, Patrícia e Sara no outro lado da esquadra e os outros guardas a dormir no outro lado. Então porque me sentia assim? Tão sozinho e com medo, tão pensativo na vida e na morte. Estou deitado numa cama suja de prisão, com o cabelo emaranhado numa almofada dura que nem rocha, atrás de grades, junto a uma sanita antiquada. Vestido por sombras às riscas, mascarado por uma falsa conformação…

- Então não falas? - Repetiu a voz na minha cabeça. Afoguei os meus ouvidos na almofada suja, apertei a cabeça afim de exorcizar a voz, qualquer coisa. Pára de falar comigo…

- Ok, como quiseres…peço desculpa por estar preocupado – Respondeu a si mesmo. – Mas que dia… –

Tinha conseguido silêncio, ele calara-se. Ainda ouvia-o a respirar, suspirava de vez em quando. Remexia-se na cama e fungava do nariz como se o estivesse a limpar. De quando a quando ouvia uns “ahhh” ou um praguejar baixo, estava me a afectar mais do que se estivesse a falar alto. Aquele mistério preso com ele matava-me.

- Que raio foi aquilo….não consigo perceber…deviam estar mortos… – Sussurrou baixo para si, mas incrivelmente alto para me despertar, para me abrir os olhos!

Quem devia estar morto? Respondia? Ignorava? Era inevitável fugir, ignorar, tinha de dizer qualquer coisa, a curiosidade estava a matar-me agora ainda mais, quem e o quê? Calma. Não te mostres desesperado, fala com calma…

- Deve ser a tua primeira vez na prisão… Bem, é a minha também, sabes? Mas que raio estou para aqui a dizer… –

- Q…quem – Calma, não vaciles. Não mostres medo nem insegurança, senão comem-te vivo aqui…

- AHA! Falas! Fodasse, estava a ver que não! Já estava aborrecido de falar comigo. Sou boa companhia, mas às vezes farto-me de falar com a mesma pessoa e para dizer a verdade preciso de varrer a mente de certas coisas. Raios…só de pensar naquilo…bem, está fino rapaz?

- Sim, mas… –

- Se quiseres eu calo-me! Bem, porque estás dentro…? –

- Hum? – A pergunta cliché de todos os reclusos, “porque estás dentro?”, mataste quantos? Roubaste? Drogas? Tens de ter a tua marca para saberem quem tu és, uma reputação a manter na prisa, para ser o tipo fixe e não o alvo de brincadeira no chuveiro. Impor respeito…alguma coisa para falar nos anos vindouros. “Sabes? Matei aquele tipo assim! Roncou que nem um porco “hehe”…enquanto o espetei com um ferro na cabeça…” Oh, bela ironia…

- Desculpa, é a pergunta que todos fazem, se mataste alguém, sabes? O normal, mas tu tens cara de santinho, mataste a tua família? AH! Desculpa…às vezes falo mais que a minha conta, a idade tem destas coisas, sabes? E como disse, estou aborrecido. – Estava a começar a gostar da maneira como a voz soava, quer fruto da minha imaginação ou real como eu e aquelas grades, esta voz que soava a cantiga alegre conseguiu-me roubar um sorriso. Gostava do seu tom que aumentava e de repente se calava enquanto esperava pelo fim do verso, não queria que se calasse. Era a luz da minha cela naquele momento. Fala meu bom homem.

- Matei dois homens… – comecei calmamente, sereno e sem vacilar, o ambiente tornou-se mais calmo e até as traças se calaram, com medo de mim. Todos escutaram, até o relógio lhe saltou uma pulsação.

- Eish moço…nem pergunto porquê… Porquê? -

- Eles estavam mortos… – Para quem não queria falar, estava a despejar tudo sem ninguém me perguntar, estaria a confiar nele ou a assustá-lo com segundas intenções? Respeito e reputação…

- Ah… –

- Não acredita? Não o censuro… –

- Não mais mortos que os meus… –

- …Claro –

- Ontem perdi um amigo meu… –

- Matou-o foi? – Disse com sarcasmo.

- Não, um morto matou-o… –

- Desculpe? – Virei-me de repente para ele. Diante mim estava um homem na casa dos seus 60 anos, sentado em cima da cama, virado para mim. Careca de barba por fazer, olhava agora cabisbaixo. O seu tom de voz tinha mudado e agora falava comigo num tom solene enquanto brincava com os dedos enrolando-os no lençol. Este homem de estatura baixa teria lutado contra zombies já? Onde e quando? Estaria ele infectado? Observei-o de alto abaixo, desde as suas calças pretas sujas até à sua camisola de malha da mesma cor. Tudo nele não fazia sentido, tinha uma voz jovial, mas um olhar sobre a sua anatomia tomava-o como débil, quase senil. A cara coberta de rugas, davam para contar a idade do senhor, cada ruga uma história como dizem. Uma orelha ligeiramente maior que a outra erguiam-se no escuro atentos a qualquer movimento. Não lhe via os olhos nem a boca, sentia-os pesados no entanto, do que viram e do que gritaram…

- Foi ferido por eles? – Perguntei com medo e preocupação, tinha-me dado pena o senhor, tão frágil e ao mesmo tempo um espírito forte.

- Eu? Não, não me tocaram…Fugi a tempo, merda… –

- Mas que aconteceu? –

- Bem, conheces ali a funerária ao pé das bombas de gasolina da BP? –

- Sim, mais ou menos. –

- Eu trabalho lá faz dez anos já, estava a treinar um rapazito que me vinha substituir na reforma, sabes? Era filho do patrão e estava à procura do primeiro biscate. E eu, digamos que a idade não perdoa… Estava ali a ensinar-lhe os ossos do ofício e estava no momento da preparação do corpo para um funeral, sabes? Banhinhos de esponja é o que é, não os têm em vivos, e agora morrem para os ter. Embora não os apreciassem, pobres diabos…mas –

- Até hoje… – Nem sei se disse isto a brincar ou a sério, mas o senhor que repetia sabes até à exaustão percebeu a piada e aproveitou a deixa.

- Sim, até hoje. Será que não gostaram do banho? Ah…pronto, não sei, eu tinha-me virado para molhar a esponja, acender um cigarrito e observar o gaiato, enquanto ele lavava o corpo a uma velha que tinha falecido há dois dias, ia ser enterrada hoje de manhã.. Continuando, estávamos a falar do Benfica e tal, merdas do costume, uhm, sim. Ele esfregava lá a velhota, eu virei-me, estava a ensopar a minha esponja e aproveitei para acender o cigarro. Pu-lo na boca e bufei, que bem me soube, sabes? Para mim é o elixir da juventude, olha para mim! – Sem grande animação forçou um riso e suspirou. - E foi então que ouvi um grito…virei-me o mais rápido que pude, não quis acreditar no que vi! Não estás a ver a situação rapaz, a velha estava a morder a cara ao rapaz! A VELHA MORTA! A mastigar na bochecha dele até arrancar metade da cara! – Beliscou-se a si próprio na cara e puxou para me mostrar como a carne tinha sido arrancada, imitou a explosão de sangue e acentuou o nojo com uma cara de choque.

- Ele caiu no chão a gritar e a contorcer-se de dor com as mãos na face, a velha abanava-se para cair em cima dele e eventualmente caiu mesmo em cima do rapaz, quando este pontapeou a estante do caixão. – Pausou. - Espera, estou um pouco enjoado… –

- Não é preciso continuar… –

- É sim, preciso de contar a alguém. Eu preciso saber que não estou louco! Ela em cima dele, a mastigar o resto da cara, o corpo ainda a tremer em choque, ainda ouvia a sua voz, sabes? Morria pouco a pouco, respirava com muita dificuldade e consegui ver que ele olhava para mim com os olhos esbugalhados a ficarem brancos a cada segundo passado, as veias cheias de sangue nos seus olhos tinham rebentado e sem piscar fixava-me. Mata-me, tira-me deste sofrimento, dizia ele com o olhar. Caiu-lhe uma lágrima de sangue… ele estava a implorar por ajuda! E eu não fiz NADA! Congelado como um mariquinhas! Estive ali num canto especado a olhar para aquela merda e não fiz a ponta de um corno! Foi então que comecei a ouvir batidas por todo o lado, eram os outros caixões, os outros diabos lá dentro queriam sair, batiam e grunhiam que nem porcos, abanavam-se lá dentro para atirar os caixões para o chão, alguns conseguiram! Alguns caixões abertos deixaram-nos sair, vinham a rastejar para mim! Para mim! Estavam MORTOS! …alguns vinham com a roupa de enterro, todos pipis…Outros…vinham nus, um deles rebentou os pontos da autópsia e à medida que vinha atrás de mim conseguia ver a merda que está do nosso corpo. – Com a mão esfregou a zona da caixa torácica, fez uma pausa respirando e continuou.

- Os ossos quase a saírem, ouvia-os a raspar no chão, sabes, aquele barulho quando arranhas quadros de ardósia? Esses mesmo…Mas o pior foi ver uma criança a levantar-se, Deus me ajude! Tinha morrido num incêndio, portanto tinha a cara queimada, veio a andar lentamente para mim, estendeu os braços e com a sua cara negra carbonizada grunhiu para mim, acho que me mijei todo nessa altura, não, MIJEI-ME MESMO! Foi o suficiente, atirei o cigarro para o tapete, saí da sala e fechei a porta. Barrei-a com um caixão que estava para ali, olhei para todo o lado á procura de algo para usar. Folhas, canetas, crucifixos e algumas cadeiras. Não havia nada de muito útil para me defender. Começaram a bater na porta e começou tudo a abanar, o caixão não era suficiente forte. Partiram o vidro da porta e enfiaram as mãos para me apanharem, notei um braço a sangrar…era o chavalo, que se tinha passado ali? Ele não tinha morrido? Estava cagado de medo até que me cheirou a queimado. Era o cigarro que deixei cair! Não foi preciso esperar muito, uma sala cheia de madeira, tecido e químicos? O fogo em cinco minutos tinha carcomido a sala toda, aqueles demónios estavam a esturricar e foi então que me senti tonto por causa o fumo, os químicos misturaram-se e espalhavam-se pelo ar. Comecei a ver tudo às voltas, comecei a tropeçar, os olhos choravam-me de irritação, tossia até que me deixei cair. Caí e perdi os sentidos, não antes de poder ver a cara do chavalo a roncar pela porta com a cabeça meio enfiada no vidro da porta. Olho para mim com os mesmos olhos e onde antes via dor, um grito de ajuda, via agora…nada, estavam vazios dele…

Quando acordei, estava aqui…Disseram que a casa funerária e o prédio tinham ardido completamente, muita gente tinha morrido, o dono apresentou queixas e acusou-me de ter morto o filho dele…Lá dentro encontraram os corpos carbonizados dos “mortos” e do miúdo. Fogo posto, disseram.

Merda…Se tivesse feito algo…

quinta-feira, 20 de março de 2008

Dia seis: Talking to ghosts in dreams

- André... –

- Uhm… -

- Ainda a dormir? -

- Quem…quem está aí? -

- Vá lá, não te faças de parvo, acorda. Eles estão a chegar, tens de sair daí rápido! –

- Mas quem está a chegar? E quem és tu? –

- André…Não os ouves? –

- Como sabes o meu nome…? Ok, se o teu objectivo era assustar-me, parabéns, conseguiste…Agora diz-me quem és! –

Acordado do meu transe, vi-me de novo no meu canto, encolhido e a tremer nem sei se era do frio ou do medo que me arranhava o corpo. Os cadáveres ainda permaneciam no centro da sala com o arpão em jeito de cruz no topo das suas cabeças. Abanando ao sabor de uma brisa inexistente, prendia-me com todas as suas forças ao meu canto de clausura. Não era necessário muita força, pois a falta da minha era suficiente para não sair dali. Eu sabia o meu lugar e não iria sair dali, mas algo tinha-me despertado…Uma voz vinda sei lá de onde tinha conseguido quebrar a hipnose que me prendia, eu conheço esta voz!

- Está aí alguém? - Perguntei timidamente em espera de uma resposta, de alguém ou de algo. Não estava ali ninguém...

– Acordaste, óptimo. Vá, procura saíres daí e vem ter comigo. –

- Ir onde? Quem és? – Estaria-me a enganar a mim próprio, pois a voz era terrivelmente familiar, sublinho o terrivelmente pois mal tive a consciência de o ouvir com ouvidos de escutar e descobri quem era, fiquei paralisado. - Ana? – Disse a tremer, temia qualquer resposta. Por favor, não…

- Sim tonto, quem esperavas que fosse? – Meu Deus, era ela, era ela! Como? Porquê? Não entendo, impossível...é tudo imaginação minha! Pára!

- Meu Deus, onde estás? C…como estás? – A minha voz mudara de vara verde assustada do escuro para um tom de preocupação. "Ana como me tinhas encontrado?"

- Estou bem, não te preocupes. Estou mais preocupada contigo…na prisão? Idiota... –

- Matei duas pessoas... –

- Dois zombies... -

- Mesmo assim, eram duas pessoas... -

- Estás parvo? Salvaste aquela gente! O que vai ser daqui a diante se estás preocupado com apenas dois zombies? Sabes que o pior está para vir, por isso tens de sair daí. -

- ... - Sem palavras, afastei a cabeça para o lado deixando o meu cabelo castanho a pender sobre os olhos, sabia que ela tinha razão e que o pior estava mesmo para vir. Mexi com a mão no chão em círculos, desenhando num arco contínuo abstraíndo-me do mundo exterior.

- Ai ai, só tu para te meteres nisso…e agora para saíres? –

- Não quero sair. – Disse ainda de cabeça baixa fixando o chão.

- Desculpa? –

- Não quero sair. – Repeti firmemente como quem tinha tomado uma decisão importante, mas e se quisesse? Não teria meios para tal. Estava numa prisão e isto não é nenhum Prison Break

- Porquê? –

- Porque estou a pagar pelo meu crime, é o meu castigo. Sinto-me bem aqui. – Disse resoluto da minha decisão, tinha-me habituado à ideia de apodrecer ali como assassino que era. Merecia-o de todo. Duas lágrimas caíram sobre os círculos desenhados na sujidade do chão, não limpei a cara, não era necessário.

- Não percebo, honestamente. Não fizeste de mal, salvaste aquela gente. Porque não sais daí? E agora sê honesto porque não acredito nesse falso conformismo. –

- Aqui…estou salvo do mundo que está a enlouquecer neste momento. Aqui nada me acontecerá… – Seria esta a verdadeira razão para não querer sair? Protecção contra os zombies? De facto, uma prisão era uma excelente protecção contra qualquer ataque seja ele vivo ou morto. Nunca me apanhariam! Estaria mesmo a fugir dos zombies ou de outra coisa? Talvez tivesse com medo de ver os que gosto a sofrer, a morrer e mais tarde reanimarem. Tinha de os matar depois...Um desconhecido era na boa, mas um amigo? Loucura!
A resposta não veio, voltei a chamar pelo nome e nada. Calei-me com atenção não fosse ela a falar de novo. Mas nada, os minutos passaram e a escuridão continuava como um nevoeiro que nos abraça como um casaco de inverno, cada vez mais apertado. Um casaco cheio de claustrofobia e sussurros vindos dos cantos da sala.

- Só pensas em ti? Só pensas no teu bem-estar? Estás bem aí dentro? E os outros? Metes-me pena… –

- Ana…eu… –

- Por favor, não digas mais nada…Foi um erro tentar falar contigo…Julguei que eras outra pessoa, mas saíste-me um egoísta…espero que fiques bem. Adeus… –

- Não te vás embora…Ana, por favor! Não, desculpa…desculpa!

A…na? –

“Estúpido! Estúpido!” Tinha sido tão estúpido, como fora capaz? Estou seguro cá dentro e que se lixe os outros? Meu Deus que barbaridades foste capaz de dizer André! O nojo, quis vomitar aquelas palavras para fora, mas nada saía e as palavras ficavam a borbulhar como uma massa sebosa de merda dentro de mim, remoía todo o meu discurso deprimente e cada vez que o reproduzia sentia mais raiva e ria de mim mesmo, como fora capaz? Levantei-me do meu campo e magicamente as forças que me prendiam, cesassaram de existir. Consegui andar, ainda chamava pelo nome dela em vão, mas as palavras não me saíam. Corri para um canto, soquei a parede e gritei os meus pulmões e finalmente consegui vomitar tudo, tudo o que se tinha passado naqueles dois dias desde a morte, à minha prisão até à conversa com Ana, finalmente estava a digerir tudo de uma vez. Chorei mais, de preocupação, de arrependimento e de medo. Onde estaria ela? Queria tanto ir ter com ela, abraçá-la e encher-lhe de alegria, quis sair dali. Por fim consegui recusar a ideia de penitência e tomei outra decisão, ir ter com ela e desculpar-me pessoalmente!
Não só a desiludi, como a mim mesmo…A vergonha…Ana perdoa-me…André...tentamos de novo?

- Não te preocupes Ana – O nome dela saiu agora normalmente, o frio transformou-se em calor e sentia-me mais humano, mas ainda continuava escuro. Os cadáveres desapareceram. Absolvição?

*

- Hey, chavalo. Acorda. –

Abri os olhos para os fechar logo, estava ainda na cama na prisão, na mesma cama suja onde me tinha deitado, Não sabia se tinha dormido minutos ou dias, mas sentia-me na mesma. Um cansaço psicológico que não me largava desde há um dia e ainda não tinha recuperado.
Não abri logo os olhos, deixei-os marinar um pouco e habituar-me às formas na sala, pouco a pouco iam-se abrindo e consegui delinear uma luz ao fundo, uma pequena lâmpada amarela velha pendia do tecto sujo do calabouço e à volta da mesma várias traças orbitavam à sua volta elipticamente como um pequeno sistema solar de bolso. Um tuc tuc fazia-se ouvir devido ao ocasional choque das traças contra à lâmpada e lá se ia a minha teoria do sistema solar, por esta altura já tinha havido uma dúzia de pequenos Big Bangs. Não distinguia mais nada lá dentro além das outras celas, lá dentro como espelhos da minha só estavam presentes uma cama e uma sanita, mas vazias. Ouvi uma pequena barata a andar pelo chão e a desaparecer tão rápido como apareceu, sentia-me sozinho para além dos insectos, mas não estava. Todas as celas estavam vazias, excepto uma, ao meu lado. Conseguia ouvir o respirar de alguém no outro lado da sala, pesado mas ao mesmo tempo descontraído, pausado de vez em quando para mascar qualquer coisa seguido de um cuspo para chão.

- Quem é a Ana? –

- Hum? –

- Ouvi-te a gritar por ela enquanto dormias, deve ser boa mulher essa tal Ana. -

domingo, 16 de março de 2008

Dia cinco: No Escuro

Não preguei olho a noite toda.
Em cima da cama desfeita por alguém que esteve naquela cela antes, balbuciava palavras sem sentido, blasfémias em surdina para o ar. Amaldiçoava todos aqueles que me tinham posto atrás daquela cortina de sombras, por me terem vestido a farda riscada.
“Ignorantes” Pensava, não tinham a noção do que se tinha passado! Apesar da minha acção ter sido uma gota de água num oceano ainda maior do que estava para vir, tinha salvo as pessoas naquela barco de um destino pior que a morte. Tinha morto alguém, tinha morto milhares de pessoas em videojogos, tinha visto as mortes mais nojentas e torturas na televisão e na internet, pensava que estava habituado para qualquer coisa…Estava tão errado, ri-me, tinha morto um ser humano…tinha morto a minha inocência, a minha sanidade. Não chorava, ria-me, tentava me lembrar do momento em que saltei do meu banco, de quando agarrei no arpão, quando trespassei aquelas duas cabeças…
Ajudou o facto de elas estarem moles, um estava morto à pouquíssimo tempo e outro estava a morrer…foi terrivelmente fácil, como uma metáfora que até poderia ser engraçada e levar às lágrimas de tanto rir, ter sentido a minha adrenalina a guiar a minha arma, a perfurar a cabeça de um lado ao outro, foi mesmo tão fácil e tão doloroso…Nem é uma questão de decidir quem morre ou vive, não é brincar a Deus ou algo do género, eles estavam mortos e isso não os impedia de nos atacar, alguém tinha de fazer algo e coube-me a mim ser o juiz e o carrasco. Foi horrível, senti-me um animal, quis vomitar, quis gritar, tanto sangue…
Lembro-me de durante a minha estadia naquela cela, não proferi quase nenhuma palavra, o que contrariava a minha natureza extrovertida e faladora. Não pedi por misericórdia nem clemência.
Sentado no escuro permaneci no meu transe hipnótico, olhava sempre em frente para a parede da cela que estava na minha direcção, absorto nos meus pensamentos confinava-me noutra prisão. Refugiei-me no canto mais escuro da minha mente, de lá encolhido num canto húmido conseguia ver os cadáveres dos que tinha morto no barco, ainda em cima um do outro, jaziam quietos sem se mexer. Admirava de uma ponta a outra as carapaças humanas vazias de alma, pequenos bonecos de trapos que jaziam inertes diante de uma figura que tremia num canto.
Estava escuro e apenas uma linha de luz luzia naquela cela mental, directamente do céu incidia na cabeça dos corpos, Deus fazia questão de me lembrar do meu pecado. “Não matarás”, tinha-o feito, foi fácil, bastou a eternidade de um segundo, foi o quanto levei a pegar no arpão. Foi…arghhh, pára, pára! A luz mostrava-me agora o arpão espetado nas cabeças, abanava, torcia-se. Conseguia ouvir a carne a mover-se dentro das cabeças…
Como fui capaz de matar alguém? Como? Não era capaz de viver mais comigo, estava a enlouquecer e de repente aquela cela começou a entranhar-se em mim. Merecia aquilo, o meu castigo estava-se a tornar justo, fiquei com sono. Aninhei-me na cama suja, ajeitei a almofada. Sorri. Matei duas pessoas.
Senti-me bem...

Dia quatro: Cela B

Pling...pling...pling
O som de cada gota a cair marcava o passo do tempo, lento e ordeiro como um relógio velho de parede. A tensão que se fazia sentir naquele momento trespassava-me como aquele arpão e sentia os olhares de toda a gente que me sentenciavam a uma eternidade de clausura por ter tirado a vida àqueles dois homens que jaziam aos meus pés com um arpão no centro das suas cabeças.
- É...assim...que os matamos... – Tinha tirado a vida a duas pessoas...Trespassei-as facilmente com um pedaço de metal que ainda pendia na minha mão, mas nunca tive tal força na minha vida, como é que fui capaz de tal golpe rápido? Se não me engano, já tinha lido sobre estudos que falavam sobre fluxos anormais de adrenalina que davam a qualquer ser humano em apuros uma força sobre-humana durante alguns segundos, tudo se passava num flash, mas é graças a essa adrenalina que se ouvem histórias de mães que salvaram os seus filhos de destroços de acidentes, na maior parte de automóveis.
O ferro que se tornara uma extensão do meu braço saia pelo outro lado da cabeça do marinheiro, pois sentia-o a arrastar pelo chão, rodeio-o apenas para ouvir um raspar seboso de cérebro do marinheiro que jazia debaixo do velho Mário, imóvel de vista morta, olhava o tecto do barco com os seus olhos brancos como cal enquanto que se acabava de esvair pela cabeça.
Era quase impossível encontrar um bocado de chão que não estivesse manchado com o sangue das vitimas, era como o Mar Morto onde tínhamos de saltitar para cima dos bancos para fugirmos àquela insanidade liquida, mas eu ainda permanecia no meu lugar com o ferro ainda na mão, sentia o sangue aos meus pés a bater nos meus ténis como as vagas chocam com as rochas em alto mar, estava inundando no sangue de seres humanos…Tinha morto alguém. A recente viúva chorava como se as suas lágrimas fossem infinitas e deixa-se cair no chão aos pés do seu amado abraçando o cadáver, pelo meio do choro olhava para mim, ofendendo-me chamando-me de assassino, miserável e qualquer calúnia possível e imaginária para a situação, mas eu não a culpava.
De cima começavam a chegar mais pessoas que rapidamente se afastavam com o horror, desviavam a cara e os mais fortes de estômago conseguiam olhar para este quadro dantesco pintado com fortes pinceladas de vermelho garrido, desceu também o resto do grupo que estava comigo que imediatamente parou no fundo das escadas em choque e espanto à mistura...Acho que já esperavam isto...Não?
– MIGUEEEL! - Gritou um tripulante que chegou de cima, dando-me um enorme encontrão que me fez sair do transe em que estava, este deixa-se cair sobre o esquecido marinheiro sem dedos que se entrava agora em convulsões no chão. Era do choque, estava a perder demasiado sangue e o seu corpo não estava a aguentar, iria acabar por falecer não tarda e eventualmente acordar como morto-vivo e atacar quem quer que estivesse nas imediações.
- Afastem-se dele....Ele vai-se levantar e atacar qualquer um...Como este aqui de cima...
– Assassino! Vais pagar pelo que fizes-te ao meu Mário! -
- AFASTA-TE DELES JÁ! ALGUÉM QUE LIGUE À PSP PARA LEVAREM ESTE GAJO ASSIM QUE CHEGARMOS! -
Com um olhar de aprovação todos os passageiros concordaram acenando telepaticamente em uníssono, estavam a mandar-me prender, tinha salvo as suas vidas e isso não interessava? Fodam-se todos!
Lembro-me ser empurrado por alguém maior, fazerem-me girar no meu lugar e quando parei estava frente a frente ao mesmo marinheiro que me deu o encontrarão há pouco apenas para ver o seu punho a vir contra a minha cara.


*

- Acorda, estamos a chegar. -
- Uhm...onde estou? -
- A caminho da esquadra. -
- André, estás bem? -
- Patrícia...Sara? O que estão aqui a fazer? O que se passou? -
- Levaste um soco e caíste para trás. Bateste com a cabeça no poste e desmaiaste. -
- Ouch... –

Foi neste momento que reparei que estava algemado, pois queria levar a mão à cabeça para fazer pressão na ferida, queria coçá-la, que impressão ter as mãos presas. Remexi-me no assento e fiz força para me tentar soltar, mas tudo em vão. Era a minha primeira vez algemado e nunca esperava que o fosse, não neste sentido. Agora sentia o peso frio do aço das algemas a sufocarem os meus pulsos, eram algemas que me sugavam a sanidade e deixavam o pânico. Comecei então a suar mais e a mexer-me violentamente no lugar dando encontrões na porta.
- Para quieto! - Gritou o condutor. Estava a ser levado para a esquadra por dois polícias, só dois? O mais velho ia a conduzir e era também o mais idoso, estava calado enquanto que o seu colega mais jovem resmungava com o rádio do carro.
- Mas que merda! Só trabalho hoje, ir ali, ir acolá! Estes cabrões andam à batatada com o vizinho e nós é que temos de ir lá parar, pr'ó caralho esta merda... –

- Tem calma...Há dias assim, qu'é queres? - Obviamente o peso da idade que falava lado a lado com a experiência da labuta, conselho plenamente válido noutro dia qualquer, mas hoje? Não...
Virei-me então para as minhas duas amigas que estavam igualmente assustadas, mas que permaneciam caladas e imóveis a olhar pelo vidro do carro.
– O que estão a fazer aqui comigo? Onde estão os outros? -
- O resto foram todos para a casa do João...Ficarão lá até dizermos algo, a Sara depois telefona-lhes. -
- E vocês? -
- Nós viemos prestar declarações, vamos explicar tudo e vai tudo correr bem. -
- Ahhh....Obrigado, mas não era preciso Patrícia, eu pelos vistos vou ficar lá muito tempo... –

- Pois... Eu de qualquer maneira tive que vir, já que fui testemunha né? -
- E tu? -
- Eu vim para dar força...Vai tudo correr bem, eu sei que sim. -
Vai tudo correr bem...Palavras compro-as eu por tuta e meia e atiro-as ao ar em vão, nada estava a correr bem e a minha cabeça ainda latejava e mal conseguia encostá-la na cabeceira do assento de tão dorida que estava, mas mais que a dor física era a dor psicológica...Ia ser preso! E agora?! Com isto tudo a acontecer!
De novo comecei a dar encontrões a tudo e deixei-me levar pela loucura e desespero.
- Ouçam, eu estou inocente, têm de me ouvir! Ele já estava morto e ia matar todos naquele barco! -
- Cala-te! Tudo o que disseres pode ser usado contra ti em tribunal e essa história dos mortos a andar não irá abonar em teu favor. -
- Mas é a verdade! Têm de ouvir a minha versão, não viram as notícias? -
- Está masé calado que ainda apanhas fodasse! -
- Vê-se mesmo que são uma cambada de estúpidos esta polícia! -
- Ai o caralho! -
Os polícias que iam à minha frente não gostaram da minha boca retorcida e como prometeram recorreram à violência com o polícia no lugar do passageiro a virar-se preparado para me esmurrar, mas nada...
– Para a próxima comes... Olha a tua sorte, chegámos. -
Para quem estava habituado a ver em filmes esquadras enormes e cheias de gente, esta pequena esquadra foi um grande choque de realidade, era pequena e tinha poucas janelas que mal deixavam entrar o sol. Parado em frente ao pequeno edifício vermelho que ostentava a mini placa a dizer PSP, lancei o meu último suspiro livre e despedi-me da minha liberdade e pé ante pé lá entrei guiado por um túnel de luz ténue que iluminava o caminho.
De facto estava mesmo escuro e o pouco sol que entrava iluminava uma pequena porta ao fundo da sala onde estava. Mal conseguia distinguir algo com aquela escuridão, mas dava a parecer que ali devia ser a sala de espera e de trabalho, mas que hoje encontrava-se quase vazia, tirando uns três pachorrentos policias ocupados com o seu trabalho administrativo, isso ou a dormir com tanta luz ali...
- Vá miúdas, vocês ficam aqui a falar comigo...Tu, leva-o para a cela B. -
- Certo chefe, vá, mexe-te! -
Como estava a adivinhar entrei pela única porta presente e por ela fui dar a outro corredor igualmente escuro. O guarda acendeu a luz e orientou-me com um rápido empurrão no ombro e lá seguimos corredor fora que acabava com outra porta que dava a uma sala com seis celas pequenas.
Lá entrei e cada passo que dava estava mais nervoso e desesperado e fiz a coisa mais natural do mundo, chorei...sim, chorei. Deixei cair uma lágrima que ecoou pela escuridão, lágrimas ignoradas pelo meu carcereiro que tinha aberto a minha cela.
- Bem-vindo à tua nova casa. -
Empurra-me para dentro e atrás de mim fecha-se a cortina de grades de ferro que terminou num estrondo seguido de um tlock.
A cela trancou-se e o guarda saiu...estava escuro...

Dia quatro: Over troubled waters

- AI, Porra! Deixa-me da mão! Já disse para me deixares dormir no barco, depois logo vejo isto do braço! -
- Mas Mário... –
- Cala-te! –
- Isso está a infectar… –

Eu estava a ouvi-los e não era o único, muitos olhavam agora para o casal idoso com cara de confusão e de repugnância. A minha cabeça não me traíra e ali estavam eles, sentados atrás junto ao WC, o senhor encostado à janela lentamente ia desfalecendo do ferimento no braço e a senhora ao lado chorava de preocupação, todos em volta manifestaram nojo.

- Para onde estão a olhar? Fodasse, já nem se pode andar na rua sem ser mordido por um vagabundo! Haviam de os matar a todos para limpar as merdas das ruas! Ai que no meu tempo não era assim! Parem de olhar já disse! -
- Mário, as pessoas... –
- Cala-te tu também! -

Raiva...A sua cabeça de cor vermelho lancinante pulsava de raiva e podia-se ver na sua boca pedaços de saliva presos a uma língua que se esforçava por gritar ou talvez fosse da idade...
“Mordido? Ele fora mordido?!” Repeti para mim mesmo assim que o barco começou a andar, o que iria fazer? Avisar os tripulantes? Eles lá irão acreditar em mim...Tinha de o manter debaixo de olho.

– André, anda lá para cima. - Veio me chamar a Patrícia.
- Não, tenho de ficar aqui... –
- Porquê? -
- Estás a ver aquele velho? Foi mordido... –
- Merda... –
- Pois, fiquem lá em cima vocês. -
- Não, fico aqui embaixo também. -
- Ok, senta-te ali então. -
Estava agora tudo mais calmo enquanto o barco marchava silenciosamente sobre as vagas do Tejo, paço firme e solene marcava mais uma rotina de meia hora. Eu, sentado agora de costas para uma janela mantinha sempre um olho discreto sobre o homem que agora dormitava babando três janelas atrás de mim enquanto a sua mulher lia uma revista cor-de-rosa sobre as últimas notícias do mundo do jet set, sem nunca tirar os olhos do seu marido. Limpava uma lágrima que caía.

- Pff... –
- Que foi André? -
- Jet Set...Se isto tudo dos zombies finalmente acontecer eles serão os primeiros a morrer com a sua futilidade ou então salvos graças ao seu dinheiro. -
- Yeah, que podemos fazer? -
- Não sei...Rezar?
– Nunca fui muito católica, apesar da minha avó ser beata e eu ter andado na catequese. -
- Nem eu, acho a maior parte das histórias da Bíblia uma fantochada, mas...sinto que há alguém superior que nos observa, não digo que é Deus, mas acho reconfortante ter alguém que toma conta de nós, que nos embala e protege. -
- Pois... –
- Não acreditas muito? Não faz mal. Eu acredito por quem precisar....Mas nem penses que me vou pôr a rezar, nem que a situação esteja mesmo fodida. -
- Sim, sim... –
- Não sou nenhum lamechas que se vira para a religião quando tudo falha, temos de saber como nos desenmerdar. Não é? -
- É pois. -
-Quer dizer, se não fosse assim, andávamos a rezar por todos os lados enquanto que o trabalho ficava por fazer!
Eu sou o meu Deus! Eu se quero boas notas, dinheiro, comida e roupa tenho de trabalhar para tal e não recorrer a contos do vigário de rezas e feitiços! Esta gente tem de aprender.
Esta gente tem de ver que certos dogmas são puramente estúpidos e paradoxais...Deus é omnipresente? Óptimo, até eu acredito nisso, visto ele ser uma entidade espiritual, mas então porque somos sempre obrigados a ir à "sua casa" todos os Domingos? Não faz sentido se podemos prestar homenagem em qualquer lugar a qualquer hora!
Para não falar das imposições à ciência... –

Toda esta retórica religiosa onde defendia a existência do "eu" superior distraiu-me por um bom bocado, fez-me bem porque me fez esquecer da essência do tempo e quando dei por isso já tinham passado uns bons dez minutos. Estava tudo silencioso, aparte da velha televisão que emitia estática apanhando por breves segundos o noticiário da 13.00, o bar estava vazio e a senhora dormitava sobre uma prateleira recheada com a mais doce pastelaria, bem, pelo menos para mim…Pasteis de nata, donuts, palmieres, pronto é melhor parar por aqui. A verdade é que desde que tudo isto começou nunca mais comemos bolos ou qualquer tipo de pastelaria, pão também é escasso, apenas comemos rações rápidas ou enlatados, mas ainda tenho esperanças de comer algo antes de morrer. A luz vermelha do WC estava acesa, indicando que estava alguém lá dentro, o resto lia o ser jornal ou dormitava…Os tri..

– Mário? Mário acorda...Mário?! Ai que alguém me acude! MÁRIO!! -
Oh não, acalma-te André....mordidela...raiva...morte? Não, não, não....
– André? - Patrícia estava claramente assustada e curiosa ao mesmo tempo.
Sem conseguir pensar numa resposta fiquei a olhar para o vazio durante algum tempo, vim ainda um tripulante a apressar-se para o banco, vi a espuma a bater nos vidros, a senhora do bar a erguer-se para espreitar e vi a televisão com estática a transmitir as notícias com Sócrates a falar de qualquer coisa...vírus...
– Cinzento... –
- Uhm?- Pergunta Patrícia ao ver-me naquele estado de transe.
- O céu...está cinzento. Vai chover... –
- O quê? -
- Chover...sangue...fim. –
- Pára... –
- Uhm? Não vês? Não consegues ver nada lá fora, nem o Sol nem a Lua...as nuvens mataram tudo e esconderam os seus corpos. - Soltei uma risada sádica enquanto olhava para os meus sapatos. Estaria a enlouquecer? Quem não o faria? Estaria o rato finalmente a vencer? Rói rói rói…
– Senhor, está bem? - Disse o tripulante com a mão no seu ombro.
- Oh Zé, vai ali buscar a mala de primeiros socorros! -
- Mário, acorda amor...por favor... –
- Senhor, não se mexa...está ferido... –
- Mário? Mário, filho, estás bem! -

Estaria bem? Mário, o idoso abre os olhos devagar ainda fixados para o rio, brancos adoentados abrem já sem vida para uma nova missão.
- AFASTEM-SE DELE! - Gritei, quebrando a hipnose em que estava.
Levantei-me e ainda dei um encontrarão na Patrícia sem querer, salto para o banco de trás e apanho o meu fôlego.
- A...fastem-se dele! Já...ele está morto! -
- Oh rapaz, está parvo? Veja, está-se a mexer...Senhor, está bem? Quantos dedos vê? -
- Mário, responde ao senhor... –

Mário, pobre Mário. Movia-se com o peso da idade e mesmo depois de morto a idade não perdoava e lentamente virou a cabeça na direcção dos dedos com os seus olhos fixados em mim e neles vi-me reflectido, a minha vida, os que amava...tudo.
– Quantos dedos vê? - Repete o marinheiro com dois dedos no ar, chamando atenção para a sua mão.
Voltado para os dedos, Mário hesitou um pouco e como se me piscasse o olho sem vida deixa cair o seu maxilar deixando à vista a sua boca velha ainda com rasgos de saliva pendente e como um trovão abocanha os dois dedos no ar, arrancando-os do membro com uma força quase sobre-humana.
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH OS MEUS DEDOS! AHHHH FODASSE AJUDEM-ME! -
- Mário!!! Para! O que estás a fazer? Pára!-
O socorrista cambaleia contra um poste e cai sobre o soalho ondulante do barco agarrado à mão decapitada. A sangrar furiosamente este ia perdendo os sentidos enquanto todos os passageiros se encolheram de nojo para as filas de trás. Mais marinheiros vieram ajudar a vítima enquanto outros com a única arma a bordo mantinham Mário afastado e impediam-no de sair.
- Um Arpão? - Falei em silêncio para Patrícia.
- Espetem isso na cabeça! - Gritou a mesma depois de ter lido os meus pensamentos, mas em vão. Ninguém parece ter ouvido ou minimamente ligado, estavam demasiado ocupados com Mário, o Canibal.
Estávamos a chegar e nem isso permitiu que se acalmassem. Mário ainda no seu banco esperneava para se mover e sair daquele cubículo, teria mais fome e queria todos aqueles ali à sua volta.
- Mário, amor...que tens? - A sua mulher estava desesperada e queria lançar-se ao pescoço do seu querido, mas não a deixavam e por mais que esta chorasse ou gritasse não a deixavam sair dali.
Finalmente depois de tanto encontrão, Mário foi sido expelido pela física e caiu fora dos assentos e estava agora nos corredores e como qualquer supermercado, teria só de escolher a vitima e já havia uma no chão a espernear de dor. O recente animado lança-se sobre o pescoço do marinheiro amputado e como se possuísse ainda uma réstia de vida olha para a sua esposa com um sorriso macabro, "bom apetite", soou na minha mente e trinca o pescoço pulsante fazendo jorrar uma cascata de sangue sobre a pastelaria do bar.
Nojo, medo, loucura impediam todos de se afastarem, um marinheiro mais corpulento gritava ordens de comando e agarra o canibal por trás e puxa da sua gamela humana apenas para ser mordido no braço e caírem os dois sobre os bancos, dando outro prato rápido a Mário.
- Tic tac, tic tac, tic tac....Tic Fodasse tac.....age! -
Esmurrei a parede e fui de encontrão a quem tinha o arpão na mão e com a surpresa do choque roubei-o e agora com ele na minha posse, tinha de agir.
- Hey rapaz, dá cá essa merda! -
- Pare, ele sabe o que vai fazer. André! - Lançou-se Patrícia ao homem que me vinha tirar a arma, ainda num jogo de empurrões que acabou por perder.
- André!! -
Tinha de ser, era agora ou nunca, eles ou eu! E com uma força que me era desconhecida levo o arpão aos céus como se o benzesse na força divina e deixo-o cair à velocidade da luz, Mário olha para mim extasiado, mas tarde demais. Caí sobre o seu crânio como um trovão e entrando pela orelha, perfurei o seu crânio acabando por trespassar a sua vítima degolada que jorrava sangue sobre os vidros ainda mais sujos. Foi rápido e quase sem esforço graças ao ouvido nem senti a ponta a cavar o cérebro matando tudo o que restava dele...
Silencio....
– Máriooooooo....O que fizeste? Assassino!
– Vai chover hoje... –