5 de Janeiro de 2008
Ao quinto dia do novo ano foi quando a realidade desabou sobre o comum mortal, a barreira que separava a ficção da realidade misturou-se homogeneamente, não deixando transparecer o que era uma coisa ou outra. Se outrora zombies eram apenas fetiches de um cinéfilo de terror, hoje eram a minha fobia.
O filme não durava duas horas e tão cedo não ia amanhecer, não haviam dias fáceis nem tanto difíceis, mas o dia seguinte nunca chegava e esses eram os dias que nunca acabavam. Viver num constante alerta sem os confortos de um lar tinham deixado muita boa gente no limiar da insanidade, pessoas essas que só viviam em rebanho lideradas por o pastor, mas quando o pastor é ainda mais cobarde que as ovelhas, o que podemos fazer? O que fazemos quando um governo podre e corrupto é o primeiro a fechar os olhos a esta ameaça? Falsas esperanças, atiram areia para os nossos olhos, propaganda eleitoral, sindicatos em greve. Basta!
São os primeiros a fugir, abandonaram as pessoas que os puseram ali, viva a república, abaixo a monarquia, ou deva dizer anarquia? Irão poder ver por vocês próprios o estado anarquista em que Portugal chegou e se antes era o cada um por si, hoje…não, depois conto porque dia cinco de Janeiro ainda foi um dia bastante calmo “heh”, calmo…digamos que a panela foi agora posta ao lume…
“ Fomos acordados pelas luzes intermitentes de um carro patrulha que estava parado nas imediações, demorámos um bom bocado até perceber que estava ali devido ao incidente que se tinha dado há algumas horas atrás, mas com o nosso sono pesado parecia que tinha passado uma eternidade. A única a não pregar o olho foi Sara, que estava sentada no chão encostada aos pés do sofá e de olhos esbugalhados agarrava a manta que a cobria como se esta fosse fugir.
Um olhar vazio em direcção à televisão que emitia um ecrã preto dava indicações que ninguém estava nas operações no seu cérebro, provavelmente quem estava no comando devia estar também chocado devido a tal choque.
João ao lastimar aquele estado pergunta-lhe se quer um café e sobe mesmo sem alguma resposta, um café forte se faz favor, estávamos todos a precisar.
Não demorou muito até a policia vir bater à nossa porta com as perguntas da praxe, bateu devagar, solenemente…Fui abrir a porta ensonada, no entanto tentando mostrar alguma sobriedade.
- Ora então, bons dias…- Cumprimenta-me o guarda com cara de poucos amigos. – É o dono da casa? – Perguntou ainda com a cara enfiada no seu bloco de notas à espera de um passo em falso no meu depoimento.
- Não, mas posso chamar a dona, espere um momento se faz favor. – Disse, duvidada que Sara estivesse em pleno para responder às questões, ela estava mal e isso iria se deixar transpor, iria tirar-lhe credibilidade, iria torná-la suspeita. Tinha de fazer algo.
Enquanto que a Sara se erguia do chão e cambaleava em direcção à porta, eu continuava a mirar o guarda e este ainda metido no seu bloco lançava olhares para o local do crime e olhares suspeitos para dentro da sala, não me topou a olhar para ele, óptimo.
- B..bom dia. – Disse Sara, engasgada.
- Bom dia, a menina é a dona da casa? –
- Sim, sou. –
Vá, calma miúda, responde devagar e concisa. Esse guarda tem tantos anos de experiência como ruga que tem na face. Não te deixes levar pela sua idade.
- Notou ou ouviu algo ontem à noite? - Começando a partida com a pergunta mais básica de qualquer questionário.
- Aparte do estrondo do cometa Blaze e dos foguetes depois, nada...Ah, alguns alarmes de carros tocaram e vidros abanaram por causa do cometa, mas o que se passou? - A sinceridade com que respondia, fingindo que não sabia de nada. Boa, estás a ir bem.
Ainda armado com o seu caderno de notas inquisidor, eu, a Sara o agente tivemos uma longa conversa em torno do tema pergunta-responde até que falou do cadáver desmembrado e mastigado, pelas descrições percebi que era o vizinho da Sara. Esta disse que ele tinha aparecido, que esteve ali a noite passada a ver se estava tudo bem e ainda falámos no caso da senhora. Ainda em choque, Sara apenas acenava confirmando a minha história, tinha tomado as rédeas da conversa, mas para nossa segurança não mencionei nada do ataque, mas também não tinha visto nada e quem viu não conseguia falar.
- Bem, daqui a pouco chega o resto do aparato policial e depois o nosso médico legista para confirmar a causa da morte, logo agora que ia entrar de férias…
Perdoe-me o desabafo. Bem, muito obrigado e se souberem de algo, façam o favor de nos ligar para este número. - Terminou entregando-me uma pequena folha do seu bloco com um número de telefone.
Afastou-se lentamente sempre a olhar para os lados. Parou no meio do jardim e olho para o fundo do terreno baldio, uma leve brisa chocou o velho agente fazendo saltar o seu curto cabelo grisalho. A mão agora livre do caderno, tira o chapéu e com a outra alisa o cabelo e volta a colocar o seu chapéu, estava de novo aprumadinho, pronto para seguir viagem. Trespassado o protão frontal ajeitou a farda, sacudiu um bocado da poeira que se lhe pegou com a brisa e pegou no seu rádio ainda olhando para o fim da rua. Fez alguns comunicados que para nós foram inaudíveis e baixou-se sobre a poça de sangue frente ao portão, mas nunca reparou que eu ainda o estava a espiar até que me virei para todos na sala dizendo:
- Temos de sair daqui, pelo menos eu…Não me sinto bem em casas grandes, um de vocês que vá chamar o João e acordar o Dias, quem quiser ficar que fique, eu vou para a minha casa, tenho um mau pressentimento em relação a isto tudo. –
- Bem, pelo menos sair daqui antes da noite, quem atacou o homem pode voltar e a Sara não fica sozinha aqui, ela vai com a gente, mas para onde vamos? – Respondeu Patrícia, uma das poucas raparigas presentes, muito parecida com a Patrícia do meu sonho anterior, sendo diferente apenas na personalidade, em vez de medo conjugado com uma arma na mão, temos uma mente preocupada e sem arma, mas de resto era igualzinha com as suas calças de ganga e camisola de caveiras pequenas, um estilo muito próprio e casual como andava sempre no dia a dia.
- Sinto-me mais seguro na minha casa, estão lá os meus pais e aquilo é uma pasmaceira que não acontece nada lá, tu e o teu irmão podem vir também, caso os teus pais ainda estejam fora.
Além que sei onde está tudo se precisarmos de alguma coisa. – Respondi-lhe com alguma insegurança, pois eu mesmo não sabia bem o que dizer, mas uma vez no meu nicho, algo me viria à cabeça.
- Sim, mas eles também têm de vir, não podem ficar sozinhos! - Exclamou com a sua voz preocupada
- Sim, sim...eles podem vir. - Ter a casa cheia poderia vir a ser um problema maior, visto não haver muito espaço e os meus pais poderiam não gostar. Lá no Montijo podemo-nos dividir e uns iam para a casa do João, por amor de Deus, um assassino maluco não ia até ao Montijo! Ou então sim...
Eram já onze horas da manhã e tudo continuava calmo, o médico legista já tinha chegado e conversava com o polícia enquanto que os outros oficiais tiravam fotos ao corpo e interrogavam os vizinhos e até dava para ver que de quando em quando olhavam na direcção da janela, apontavam para aqui e depois para o sangue, até que o médico entrou na ambulância já com o cadáver embrulhado lá dentro e partiu com esta, o agente continuou ali mais cinco minutos acabando por se ir embora no seu carro patrulha.
Meio-dia e tudo continuava calmo, à excepção de algumas pessoas na rua, pequenas formigas atarefadas com os seus sacos das compras ou de mp3 desciam e subiam a rua, ocasionalmente lá passava o número 13 com direcção a Lisboa com algumas pessoas que dormitavam nos seus travesseiros de vidro neste dia vazio de vida.
Já todos em baixo, vestidos e com malas feitas decidimos sair e partir para o comboio que saía da Cruz Quebrada, apanhar o barco no Cais do Sodré e correr para o Montijo, que tal este plano? Soava bem de início, mas uma vez na rua não sabíamos o que esperar e tínhamos de acordar a Sara que bebia agora o seu café com absoluto silêncio.
Éramos nove pessoas e no carro cabiam no máximo cinco pessoas, portanto isto iria implicar fazer-se duas viagens para reunir toda a gente no comboio.
Decidi ficar para trás e ir na última viagem, sinceramente não gostava de esperar e por consequentemente perder um comboio portanto poupei-me a tal percalço e fiquei no jardim a olhar para o céu a pensar onde estaria agora o cometa ou se ainda existia e às vezes fragmentos da noite passada apareciam de repente no meu consciente.
A minha colecção favorita de filmes de zombies…fechei os olhos.
O último livro que li sobre zombies de Max Brooks, era um manual de sobrevivência que nos ajudava a sobreviver num cenário apocalíptico povoado por mortos vivos, era uma boa obra de ficção…fechei os olhos.
Vi o cometa a passar pela minha cabeça, a arder a soltar detritos por todo o mundo, um bocado bem grande caiu mesmo ao meu lado, aproximei-me…era um cadáver. Começou a mexer-se, a virar-se lentamente para mim, sem soltar nenhum som. A cabeça dele finalmente pára, fixou-se nos meus olhos e solta um gemido. Um simples e baixo gemido que me envolveu como as chamas do inferno consomem os pecadores. Pior…o cadáver? Era eu…fechei os olhos.
A realidade esbateu-se forte em mim, estava no meio de uma cidade em chamas, uma cidade cinzenta tingida de laranja, estava a arder, estava no inferno! Olho para baixo, estou todo roto, porco, ensanguentado…aos meus pés jazem corpos, as caras desfeitas sem qualquer reconhecimento possível. Tenho uma arma, na culatra um tiro…fecho os olhos.
Acordo uma vez mais no jardim e decido entrar, começa a ficar frio…Lá dentro ligaram a televisão e enquanto se praticava o zapping calhou parar na CNN que transmitia as últimas notícias do mundo.
“Good night, this is Corrie with the late news.
The authorities finally found the hideout of the suicide cult, Heaven’s Gate. They were hiding in Hibbing, Minnesota on a remote house far way from the urban area.
In the place, we have our correspondent Harris.
Hello Harris, what can you tell us about the place?
Harris: Well Corrie, apart from the SWAT team apparatus, the house seems very quiet and dark, no signs of life whatsoever.
Corrie: Are they coming in? Can you enter as well?
Harris: Sadly, but no, we have to stay outside, but nothing stops us from shooting through the window. The SWAT team will enter in five minutes or so, right now they are calling to whoever is inside.
Corrie: Are they replying?
Harris: No, nothing. Quiet as a graveyard like the folks say.
Corrie: Harris, I can see that they are commencing the operation as we speak, can you please secure us a good spot?”
- Deixem estar aí, quero ver esta cena…aposto que devem estar todos mortos… – Exclamei com um entusiasmo mórbido, claramente assustado, disfarçando-o.
“Harris: Ok, we are ready and so are they or it seems. I’m seeing through the window as we speak and apart from being dark I don’t make anything out…
Ok, I turned on the cam’s light and oh god...There are corpses everywhere, this is unbelievable Corrie, what a mess! It’s not even like 1997 where they were laid in bunkers and stuff, these were everywhere and even on top of everyone! Jesus! There women, men and even children! The humanity of these people…In my entire career I have never seen anything like this before and I am absolutely shocked!
Corrie: Even we…in the studio are shocked with such brutality.
Harris: The Swat are coming in the house very slowly and guns ready as if they were expecting some sort of attack and we have to stay outside…They are all in, scattered and inspecting the bodies, measuring pulse and randomly calling for someone to check for survivors. Wait, a swat member is leaving!
Sir, sir! What can you tell us from this gorish scene?
SWAT 1: Well, the house is very small aaaand we rapidly swept all rooms only to find more dead bodies, eeerm some were laid down on the floor, someeee were still sitting on several chairs. The kids man, those were the worse, eyes wide open staring at us with foam coming from their little mouths, sickening…buuut…
Harris: Sir, I think something is happening inside, look. That huge pile of bodies is moving, someone alive?
SWAT 1: As much I would love to believe that, it isn’t possible…
Harris: Look! I see an arm pulling out from that stockpile! Scratching the floor, urging for some air, go help him! Now!”
De facto, nesse momento viam-se um par de braços a bradar e a arranhar o soalho de madeira velho como se estivessem a fazer força para saírem dali, os SWAT lá dentro correram para os braços e começaram a atirar os corpos para o lado até desenterrarem o que se mexia, uma criança…Todos saltaram para a ajudar, só para constatar o osso saliente do braço a tentar fugir pelo ombro, com horror quase todos recuaram ficando apenas dois que lançaram os dedos ao pescoço da criança. Não ouvia nada lá dentro porque a câmara estava cá fora, mas devem-se ter apercebido da ausência de pulso desta que se tentava virar para apanhar os guardas lá dentro.
"Harris: Is she dead? How can she still be moving? She is wavering at the SWAT trying to grab one of them, help the child for god sake!"
Ainda focada na criança reparei em vultos negros a erguerem-se do chão, uns ainda em cima uns dos outros atrapalhavam-se neste processo, os que tinham sido arremessados pelos SWAT levantam-se com dificuldade ou nem se levantavam, pois ou tinham as pernas debilitadas ou a coluna partida tal era a força dos operativos que agora recuavam de armas em riste apontadas nos corpos agora erguidos do chão.
Eu estava em choque juntamente com os presentes na sala, tínhamos visto toda a gente tombada, falecida ali na casa…Estavam mortos e agora ergueram-se? Zombies? Não podia ou não queria acreditar nisto, tudo o que sempre desejei tornou-se real. Deixei-me cair no chão sem falar e respirava cada vez mais rápido, enquanto que dentro da televisão via o grupo reanimado a andar lentamente no encalço dos SWAT, via as suas bocas a mexer de lançarem ordens ignoradas até que dispararam uma ronda das suas automáticas. A barreira de zombies caiu e fez-se uma pausa de alívio até que acabaram por se levantar de novo e prontos para atacar, o tempo que as armas demoraram a carregar foi o tempo necessário para chegaram ao pé dos SWAT. Os zombies não tinham um padrão de luta organizado e só se limitavam a morder o que podiam e eram fortes em grupo e isso punha os militares enclausurados em desvantagem. Dois corpos enormes lançaram-se sobre o líder dos operativos deitando-o por terra, começando-o a morder cada braço, este esperneava de dor que deveria ser lancinante, mesmo por cima do fato protector, mais dois zombies caíram sobre o corpo e com as suas unhas começaram a esgravatar o seu estômago até que as tripas deste rasgam-se dando um enorme festim aos mortos que caiam sobre ele. A câmara ainda filmava sem se mexer, como se de um filme de cinema se tratasse e captava toda aquela cena dantesca, o SWAT entrevistado desembainhou a sua faca de combate e degola um zombie, sem resultado, pois este nem vacilou e que fez o zombie retaliar com um enorme soco que veio do lado direito acertando mesmo no crânio levando o agredido a bater com a cabeça na parede, partindo-a, pois o a câmara estava mesmo perto da janela e viu-se o sangue a espalhar-se pelo vidro tapando a imagem.
Agora não conseguia ver nada e apenas distingui uns clarões que suspeito terem sido mais disparos e depois mais nada, até que decidiram acordar e mover a câmara de sitio para a frente da porta onde ainda se via dois SWAT que correram cá para fora, um agarrado ao braço e outro a coxear e atrás deles vinham um cada vez mais numeroso exército de mortos recentemente animados. A gritar desembainharam os revolveres e dispararam fazendo com que alguns zombies caíssem das escadas abaixo, voltaram a disparar as últimas balas acertando em diversas partes do corpo sem nenhum efeito de dano, pois estes continuavam a avançar. As balas escasseavam e a sanidade também, os repórteres afastavam-se enquanto filmavam os restantes guardas a ficarem sem munições acabando por serem inundados pela monção de cadáveres ambulantes. O que amparava o braço ferido estava indefeso pois só tinha um membro para a sua defesa, mas este foi arrancado por três zombies famintos que depois deixaram o amputado a gritar de dor que cai só para se esvair em sangue no chão, já o seu colega tinha tombado e sobre ele estava um membro da SWAT recém animado a banquetear-se na sua cara.
“Harris: Corrie! I don’t know what the hell is happening, but the shit has hit the fan! I’m out of here! Run man!
Corrie: Harris, please tell us what happened there, we couldn’t hear much.
Harris: Well Corrie, the dead gained life!
Corrie: What?
Harris: You heard me! The goddamn dead are coming back to life and I’m running for my fucking life!”
A câmara caiu e vimos Harris o repórter mais o suposto câmara-man a correrem pelo mato fora, passaram-se ainda dois minutos de filmagem e vimos os pés dos seus perseguidores a seguirem na mesma direcção, uns rastejavam e outros moviam-se mais rápido mas iam todos para o mato atrás do repórter e do seu ajudante até a transmissão terminar.
Corrie: This feed was cut due to signal problems, we hope to contact them soon. Events like this already happened in Australia and India and now in America, Act of terrorism? We’ll see while we wait for more info.
This is Corrie Catral and these are the CNN news.
Só consegui engolir em seco…