- Cinzento... –
O céu estava cinzento como se estivesse a ameaçar o dilúvio. Ao sair da carruagem grafitada do comboio parecia que tinha entrado num filme a preto e branco, quer pelas cores do cenário quer pelos silêncios que se faziam ouvir na estação..
- Está tudo tão silencioso, quase não se vê ninguém na rua...será? -
- Não, ainda não... – Acalmei Sara que estava um pouco mais à frente a olhar para todo o lado à procura de alguém.
– Quero dizer, acho...mas se assim fosse dava para notar, creio eu. Já os tínhamos ouvido. Fumo no ar. Tiros. Gritos. Qualquer coisa… -
- Pois, ao menos ouvia-se algo, mas mesmo assim o cais está muito vazio, há pouquíssima gente na rua. -
- Pah, tirando que é sábado, que alguns devem estar a trabalhar e que muitos ainda estão de férias, estamos ainda muito longe da hora de ponta, portanto é normal isto. Olha, aquele comboio está cheio de gente, vês? -
De facto estavam a chegar mais pessoas àquele antro, mas nem por isso vieram animar o local, meu Deus, estava tudo terrivelmente calado, pouco ortodoxo nos dias que correm. Tanta correria e azáfama nos dias normais, jornais à frente da cara, ruídos inaudíveis, conversas cruzadas, nada se passava naquele momento pois cada um estava escondido dentro de si mesmos. Era sábado…
Pronto, estou a exagerar, nem tudo segue de forma autómata, silenciosamente como andassem para a prancha, apenas uma tentativa de metáfora com o tempo triste, mas a pura das verdades é que o ambiente estava pesado e lúgubre e os jornais eram inexistentes àquela hora do dia. Espera...era sábado! Claro que é lógico estar tudo parado, calmo, não haver jornais ou hora de ponta! “Controla-te meu”, pensei para mim mesmo. O ratinho do pânico já estava solto à algum tempo, mas só agora é que ele tinha começado a roer as linhas da sanidade e da razão. “Vá, tens de fazer mais sentido…”
- Cuidado Mário! –
- Deixa, deixa...está presa, já estanquei! -
- Ai, Mário. Vamos ao médico assim que chegarmos ao Montijo! -
- Ai, lá estás tu...Pronto, vamos lá quando chegarmos, mas agora deixa-me apanhar o barco e dormir porque não durmo desde ontem à noite por causa do barulho! -
No entanto parece que fui o único a ouvir, ninguém mais deu atenção à conversa, será que imaginei tudo? Sempre tive tendências para tal...E agora era muito provável…
Lentamente andámos para o cais e eu ainda olhava em volta á procura do nada e era isso que via, o céu estava mais carregado e as nuvens cheias como se fossem explodir. A sombra das nuvens incidia nos prédios das redondezas despindo-os de cor, gigantes de pedra que me impedem de fugir à realidade e ir para o meu mundo imaginário.
“Acorda André...Vá...” Ainda pensava.
"Dead man walking" Já alguma vez ouviram esta expressão? Usa-se quando um condenado à morte caminha para a sua sentença final, mas o que tem a ver comigo? Tudo ou nada, mas naquele momento sentia-me como se a minha caminhada estivesse a chegar ao fim. Estava cansado, com sono, com fome e sede, e a comida da pastelaria ao lado não me saciava os olhos nem o nariz, não comi nada…passei ainda muito bom tempo sem comer no desenrolar desta história. Fui estúpido?
Já tinham todos entrado no barco e nem sinal da conversa de há pouco.
“Fodasse!” Estava agora nervoso e a suar, o que quer que tivesse acontecido ia ver no barco, alguém mordido? Ferido acidentalmente? Imaginação? De qualquer maneira, se um infectado entrasse no barco era a morte certa, para ele e para qualquer um perto de sim. Morte em alto mar, sem escape para as futuras vítimas encarceradas no que viria a ser o seu caixão flutuante, não há qualquer defesa nem conhecimento! Estava tudo nas minhas mãos, lutar contra eles, contra estes gigantes do purgatório...há que espalhar a palavra...
Entrei no barco e o rádio tocava uma leve música de Zeca Afonso
“Viva a liberdade, viva Portugal”....ouvi um grito...
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