domingo, 2 de março de 2008

Dia três: fogo de artifício

3 de Janeiro de 2008

Nada a relatar do dia 3, perfeitamente normal ocupado com a azáfama pré-faculdade.
A monotonia não era só comigo, tudo à minha volta estava parado no tempo, nada de interessante passava nas notícias, para além do cometa claro. Nada de relevante para o tema em questão, que é sobreviver ou alguma pista para o inicio do outbreak.
Vou avançar para o dia talvez mais importante para o panorama nacional, escapando dos alicerces Holywoodescos onde tudo se passa apenas nos Estados Unidos, vou dar início à verdadeira história portuguesa. Uma história real onde prevalece a ignorância científica, a deficiência politica e militar e a blasfémia religiosa.

Iremos avançar então.

4 de Janeiro de 2008

São dez horas da manhã, acabei de acordar naturalmente sem qualquer despertador, lá fora ouve-se o mesmo de sempre concerto citadino, carros, buzinas, pessoas a passar e a conversarem. Era sempre o mesmo todos os dias.
Pena não existirem galos despertadores nas grandes cidades, não sei porquê, mas acordar ao som destes despertadores de aviário dá-nos uma sensação de que o dia vai ser bom, de que tudo vai mudar. Mas num mundo mais real quem me acorda é o meu telemóvel, o meu singelo telemóvel comprado em segunda mão a uma rapariga tão gira quanto uma manhã de primavera quando a primeira rosa desperta ao mundo banhando-se nas últimas gotas do orvalho.
Falando nessa rapariga, a última vez que falámos ela tinha-me dito que se ia juntar ao exército. Mais tarde soube que consegui se alistar. Neste momento se ainda estiver viva, deve estar a combater nalgum canto do país protegendo civis e a si mesmo.
Espero que esteja bem, mas depois do que aconteceu à força militar nestas últimas semanas, as possibilidades de ela estar bem são mínimas.
Continuando, estava a dizer que era uma pessoa simples e não ligava muito a telemóveis pois achava-os um mal necessário e já tinha gasto mais dinheiro nele que em mim, era incrivelmente estúpido! Mas assim ditavam as leis de uma sociedade onde existem mais telemóveis per capita. Então todas as dez da manhã uma calma música começava a tocar automaticamente subindo de tom, ao bom estilo de um filme de terror dos anos 80 criando suspense até ao culminar na morte, aliás, o som era mesmo de um filme de terror, um filme de terror onde a história erguia-se em redor de telemóveis, o meu arqui-inimigo. Noutra altura poderia ficar aqui a falar do filme, mas hoje simplesmente não dá, mas caso a guerra termine, é um bom filme a ver, sem dúvida.
Falando no diabo…começou a tocar agora mesmo. Tocava e ainda tocava e eu a olhar para o tecto de tinta branca ainda a admirar a música, mas tinha de reagir e então desliguei o repetido despertar e pronto para um novo dia saltei da cama, mas hoje com uma motivação especial, o cometa iria passar sobre a minha cabeça e durante anos nunca iria sair de lá.
Ah, esperem! O cometa já tem nome, cometa Blaze, bom nome não? Blaze vinha de chamas o que para um cometa era quase poético, ou então foi algum cientista conhecido por Blaze, tinha um excelente gosto o homem.
Agora tinha de limpar o telescópio e preparar mala e farnel para logo à noite, mas ainda havia tempo para uma jogatana e visto estar sozinho em casa, não havia melhor altura.
Três horas passaram desde que peguei no comando e agora como qualquer português estava atrasado nas minhas tarefas, tirar o telescópio do armário e limpá-lo provou ser uma tarefa hercúlea numa luta sem vitória contra o pó, mas com alguma perseverança lá limpei o enorme canudo de ferro e cada vez mais estava excitado, agora faltava só a comida para levar, mas com o tempo que me restava só deu para preparar umas sandes, o manjar dos deuses pobres! Ah, ri para mim enquanto corria para o barco que por sua vez também estava atrasado devido às comemorações nocturnas que se iam realizar daqui a umas horas.
Uma vez lá dentro, refastelei-me na dura cadeira e apanhei um jornal transeunte, o Global, e pus-me a ler as últimas trivialidades do mundo, mas a primeira página esbofeteou-me logo à atenção:

“Novo culto de Heavens’s Gate irá dar continuidade ao trabalho dos seus antecessores”

A curiosidade matou o gato e continuei a ler:

“Seguindo as pisadas de Marshall Applewhite, o criador de Heaven’s Gate que acreditava que Jesus voava lado a lado com o cometa Hale Bopp e que levou trinta e nove pessoas a cometer suicídio em grupo para seguirem Jesus, alguns indivíduos ainda no anonimato fizeram uma actualização ao website original do Heaven’s Gate criado em 1997 afim de voltarem a espalhar a palavra do Messias, Applewhite.
O local do suicídio em massa, ainda é desconhecido aos media, mas fontes seguras dizem que o número de suicídios poderá ser maior que há onze anos devido à expansão e rapidez com que se espalham as mensagens nos tempos que correm, graças à internet e outros meios. No entanto as autoridades intensificaram as buscas a fim de apanhar os possíveis burlões.”

Estas pessoas enlouqueciam-me, como era possível alguém ainda acreditar neste conto da carochinha? Escapava-me de todo e infelizmente muitos tristes iriam tomar este rumo e terminar a sua vida com um copo de vodka misturado com Fenobarbital, pelo menos foi como fizeram em 1997, caso não funcione, podem sempre colocar o primitivo saco de plástico na cabeça…tristes.
Outras manchetes ainda me encheram o olho, mas rapidamente fugiram da minha atenção sonolenta, desde misteriosas mortes na Índia logo após a passagem do cometa, como os inúmeros corpos encontrados nos desertos australianos, até à mutação do vírus H5N1 que levou a mais mortes agora no Paquistão.
Assim como arrancara, rapidamente chegara a Lisboa e assim se desenrolava uma tarde corriqueira cheia de normalidade seguida de um comboio pachorrento que demorou uma pequena eternidade até chegar à casa onde todos os meus amigos se encontravam prontos para a chegada de Blaze.

21.00 Horas da noite e o cometa aproximava-se pois ao longe já se vislumbrava um clarão branco emanado do seu rasto estelar.

- Hey, parece o Meteor de Final Fantasy VII! – Comentou João em êxtase ao ver o cometa ao longe.

João era um rapaz alto a dar para o forte que era algo fanático por Final Fantasy e sabia tudo o que havia para saber acerca da saga e então por onde andava só via Final Fantasy, mas agora tinha de concordar com ele, ao longe parecia mesmo o Meteor, mas diferenciava-se na medida que este não vinha destruir o planeta...pelo menos, não chocando com ele.
Sentámo-nos todos em redor do telescópio à espera da nossa visita. Ao mesmo tempo que Sara, uma mocinha de cariz baixo e dona da casa vinha com a sua câmara para fotografar o evento. Tínhamos uma excelente visibilidade pois à frente da casa dela havia um descampado enorme portanto não haveria problema das obstruções citadinas e ainda por cima o céu estava limpo, como se as outras estrelas tivessem estendido um tapete vermelho para a passagem de Blaze.
Era agora, o céu estava radiante de cores como uma aurora boreal e o cometa zumbia mesmo por cima das nossas cabeças, estava perto, muito perto! Parecia estar mesmo ao alcance das nossas mãos sagazes do seu toque celestial, era como se Deus tivesse descido à Terra. O esférico ou o que restava dele ia girando sem ordem como se estivesse embriagado e devido ao atrito com a nossa atmosfera este ia-se vaporizando e perdendo material que ia constituir a sua longa bela cauda branca e azul, os detritos que se separavam iam caindo por todo o Portugal como se chovesse, a chamada chuva de estrelas. Tinha algo de romântico aquilo, um casal de mãos dadas a ver o céu cheio de pirilampos espaciais, o que poderia ser melhor?
Mas o cometa era muito barulhento! Pode-se dizer que quebrou mesmo a barreira do som, pois por momentos não ouvimos nada e muitos vidros vibraram, tendo alguns partindo segundos depois e muitos alarmes de carros começaram a gritar violentamente de susto.
Finda a passagem do cometa, ao longe ouviram-se explosões na qual confirmei que eram foguetes vindos da ainda longínqua Lisboa que estava a gastar agora os últimos estalinhos do Ano Novo, para esta gente tudo era uma festa…Foguetes de todas as cores e feitios que imitavam as pinceladas do cometa Blaze, imitar só se for em barulho, porque aquela maravilha nem se podia comparar com a Capela Sistina, que era o cometa Blaze. Após os foguetes começava a farra nocturna com música intragável ao meu paladar auditivo e as febras iriam ser postas na brasa, a minha parte favorita em qualquer festa tradicional portuguesa.
E pronto, foi aquilo, uns inesquecíveis cinco minutos que me iam perdurar a vida toda ou o que restava dela pelo menos, findo isto, todos entraram para a sala ficando eu cá fora a arrumar a tralha de observação. Aparte da música ao fundo, estava tudo muito silencioso agora que os carros se calaram e o cometa já ia longe, estava um silêncio tenebroso e arrepiante que era perfeito para segunda parte da noite que para mim iria ser a melhor parte, a maratona de Romero e os seus filmes de mortos vivos! Antes de entrar constatei que se estava a levantar um nevoeiro, tornando a noite ainda mais lúgubre, mas não liguei, achei perfeito para o ambiente e pronto, como era de admirar, quando lá cheguei à sala não havia lugar para mim nos sofás, estando toda a gente aninhada no seu canto colados às suas mantas quentes e ainda por cima eu tinha de pôr o filme, a bela da consideração.

- André, senta-te. Vou lá cima ao WC e se calhar vou-me deitar. – Disse o outro João presente no grupo, mas por efeitos da vossa sanidade mental para não se confundirem, vamos chamar a este João, de Dias.
- Ok, obrigado, fecha a porte de cima depois se não te importares. –
Espero que ele tenha ouvido porque já ia no andar de cima quando dei a ordem, não me apetecia nada mesmo ir trancar aquela porta gigante que ainda por cima custava a fechar.

“We interrupt this program to bring you the news of the moment!”

Está a começar Dawn of the Dead! Que peça cinematográfica! Um dos meus favoritos!

“The recently deceased are coming back to life…”

-Oh yeah! – Murmurei baixo para só eu e os meus botões ouvirem.

“I repeat, the dead are walking!”

- Era bom, não? Era espectacular haver um outbreak de zombies? – Falei agora um pouco mais alto, alto demais creio.
- Cala-te André! – Ordenou Patrícia com cara de interessada nas notícias do filme.

“I advise anyone to stay in their homes, do not attempt to reach for loved ones, and do not leave shelter!”

- Mas na rua é onde se vê o espectáculo! Vocês não sairiam? – Eu parecia mesmo uma criança com isto, estava a aparvalhar em demasia ao ponto de chatear os presentes.

- André… – Falou a Patrícia de novo.

“If you do meet one of them, the only way to escape is to bash them in the head. But chances are that if you meet one, unarmed, you will die!”

Nesse preciso momento ouviu-se um toque na janela…De novo, alguém estava a bater lá fora e do nada parou, agora ouvia-se passadas lentas no jardim, como se alguém estivesse a arrastar os pés lá fora. Escusado será dizer que todos ficámos assustados e a olhar uns para os outros com uma gota de suor a escorregar pelo pescoço. Pus o filme em pausa mesmo em cheio no primeiro zombie a aparecer no filme…Coincidência?
Não, era demasiado irreal e fantasista ou mesmo uma partida de mau gosto das nossas mentes pois agora estava tudo silencioso e não se ouvia vivalma.
Mais um bocado se passou ainda tudo em silêncio quando o barulho voltou lá fora, agora batiam na porta com mais força, pareciam que iam arrombar a porta! A dona da casa levantou-se e pé ante pé dirigiu-se à janela seguida dos olhares atentos dos presentes, uma vez perto da janela começou a espreitar pela cortina transparente e nada, não estava lá ninguém.

- Bah, deve ter sido o vento... – Disse suspirando de alívio, fechando a cortina atrás de si.

Nisto, um enorme vulto cresceu atrás de si até a engolir em sombras, este lança-se sobre a janela bruscamente...


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