- Então fica para amanhã à noite certo? Vamos aí todos, levo o meu telescópio para ver o cometa e uns filmes e passa-se uma boa noite. Ok, fala com o resto, adeus. –
Desligo o telemóvel e atiro-o para cima da cama mal feita enquanto me resvalo para o chão e encosto-me à mesma.
As aulas iriam começar já daqui a uns dias e já ansiava pelas férias do Carnaval e da Páscoa, deitar tarde e acordar tarde sem fazer a ponta de um corno, haveria algo melhor? Ok, talvez pudesse haver algo melhor, mas agora não consigo pensar em nada, tinha de me animar até ao dia quatro. Iria ser nesse dia à noite que iria ver pela primeira vez na minha vida um cometa, portanto olhei para todo o meu quarto à procura de algo divertido o suficiente para me aguentar porque estava como um drogado à procura de uma dose para me aguentar. Levantei-me e rastejei que nem zombie em direcção à minha prateleira de jogos e acariciei de uma rajada toda uma fila até parar na minha colecção predilecta, Resident Evil, haveria algo melhor que um holocausto de mortos vivos? Uma nação de joelhos perante tal abominação vinda dos infernos de Dante? Enfim, para mim era um sonho tornado realidade, mas eu era parvo desejar tal coisa; mas é como o ditado “cuidado com o que desejas, pois pode-se tornar realidade”…
Naquele dia, tinha estado melhor se estivesse calado. Naquele dia, estava melhor nem ter saído da cama. Aquele dia, nem devia ter existido…
Há muitas coisas de que me arrependo, coisas que fiz e coisas que não fiz, mas que devia ter feito e por isso estou a pagar neste momento, mas em breve tudo vai terminar…De uma maneira ou de outra, quer sejamos nós ou eles a ganhar, isto vai acabar, tenho uma bala com o meu nome que o confirma.
Ainda com o dedo sobre a minha colecção mortiça, puxo para fora o primeiro da série, um clássico dos clássicos que ainda consegue eriçar os pelos dos meus braços, mas eis que chegam os meus pais e o tempo de jogar iria ter de esperar, pois os excelentíssimos gostavam de jantar acompanhados com uma bela garrafa de noticias do mundo. Não tinha fome, portanto fiquei na sala a contar os minutos até poder jogar e enquanto esperava calmamente ia assimilando o que iam falando no noticiário e por incrível que pareça era o mesmo de todos os dias: encerramento das urgências em mais duas freguesias, mortes na “noite” do Porto, a pobre Esmeralda e o interminável tango entre o pai afectivo e biológico. Será que não se interessam pelo que ela pensa? Deixem a miúda em paz! E eis que falam do cometa! Papava qualquer informação como um ébrio à procura de bebida e estas notícias eram novas, tinham anunciando o nome do cometa e mostravam novas imagens do mesmo.
Um espectáculo!
Não poderia dizer melhor, à medida que via as imagens do pequeno calhau nos céus da Índia a sobrevoar o Taj Mahal, mas o povo indiano considerava isso um mau agoiro, pois um cometa assim como um eclipse faziam lembrar Rahu, o cavaleiro demónio que tentava aniquilar a Lua e o Sol por estes o terem denunciado a Vishnu. Vishnu decapitou Rahu, mas este sobreviveu e transformou-se em duas entidades, Rahu, a cabeça e Reku, o corpo, dois seres que voltaram da morte e considerados demónios e isso era muito mau para a comunidade Hindu.
Entretanto, outros países alheios a tais contos populares festejavam a passagem do cometa ou aproveitavam ainda para beber mais um pouco para comemorar o Ano Novo e Portugal não era excepção pois este estava-se a preparar para uma recepção ao astro como se de uma figura VIP se tratasse.
Estava tudo pronto para receber o cometa…Blaze…estava tudo pronto para receber a morte…
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