- AI, Porra! Deixa-me da mão! Já disse para me deixares dormir no barco, depois logo vejo isto do braço! -
- Mas Mário... –
- Cala-te! –
- Isso está a infectar… –
Eu estava a ouvi-los e não era o único, muitos olhavam agora para o casal idoso com cara de confusão e de repugnância. A minha cabeça não me traíra e ali estavam eles, sentados atrás junto ao WC, o senhor encostado à janela lentamente ia desfalecendo do ferimento no braço e a senhora ao lado chorava de preocupação, todos em volta manifestaram nojo.
- Para onde estão a olhar? Fodasse, já nem se pode andar na rua sem ser mordido por um vagabundo! Haviam de os matar a todos para limpar as merdas das ruas! Ai que no meu tempo não era assim! Parem de olhar já disse! -
- Mário, as pessoas... –
- Cala-te tu também! -
Raiva...A sua cabeça de cor vermelho lancinante pulsava de raiva e podia-se ver na sua boca pedaços de saliva presos a uma língua que se esforçava por gritar ou talvez fosse da idade...
“Mordido? Ele fora mordido?!” Repeti para mim mesmo assim que o barco começou a andar, o que iria fazer? Avisar os tripulantes? Eles lá irão acreditar em mim...Tinha de o manter debaixo de olho.
– André, anda lá para cima. - Veio me chamar a Patrícia.
- Não, tenho de ficar aqui... –
- Porquê? -
- Estás a ver aquele velho? Foi mordido... –
- Merda... –
- Pois, fiquem lá em cima vocês. -
- Não, fico aqui embaixo também. -
- Ok, senta-te ali então. -
Estava agora tudo mais calmo enquanto o barco marchava silenciosamente sobre as vagas do Tejo, paço firme e solene marcava mais uma rotina de meia hora. Eu, sentado agora de costas para uma janela mantinha sempre um olho discreto sobre o homem que agora dormitava babando três janelas atrás de mim enquanto a sua mulher lia uma revista cor-de-rosa sobre as últimas notícias do mundo do jet set, sem nunca tirar os olhos do seu marido. Limpava uma lágrima que caía.
- Pff... –
- Que foi André? -
- Jet Set...Se isto tudo dos zombies finalmente acontecer eles serão os primeiros a morrer com a sua futilidade ou então salvos graças ao seu dinheiro. -
- Yeah, que podemos fazer? -
- Não sei...Rezar?
– Nunca fui muito católica, apesar da minha avó ser beata e eu ter andado na catequese. -
- Nem eu, acho a maior parte das histórias da Bíblia uma fantochada, mas...sinto que há alguém superior que nos observa, não digo que é Deus, mas acho reconfortante ter alguém que toma conta de nós, que nos embala e protege. -
- Pois... –
- Não acreditas muito? Não faz mal. Eu acredito por quem precisar....Mas nem penses que me vou pôr a rezar, nem que a situação esteja mesmo fodida. -
- Sim, sim... –
- Não sou nenhum lamechas que se vira para a religião quando tudo falha, temos de saber como nos desenmerdar. Não é? -
- É pois. -
-Quer dizer, se não fosse assim, andávamos a rezar por todos os lados enquanto que o trabalho ficava por fazer!
Eu sou o meu Deus! Eu se quero boas notas, dinheiro, comida e roupa tenho de trabalhar para tal e não recorrer a contos do vigário de rezas e feitiços! Esta gente tem de aprender.
Esta gente tem de ver que certos dogmas são puramente estúpidos e paradoxais...Deus é omnipresente? Óptimo, até eu acredito nisso, visto ele ser uma entidade espiritual, mas então porque somos sempre obrigados a ir à "sua casa" todos os Domingos? Não faz sentido se podemos prestar homenagem em qualquer lugar a qualquer hora!
Para não falar das imposições à ciência... –
Toda esta retórica religiosa onde defendia a existência do "eu" superior distraiu-me por um bom bocado, fez-me bem porque me fez esquecer da essência do tempo e quando dei por isso já tinham passado uns bons dez minutos. Estava tudo silencioso, aparte da velha televisão que emitia estática apanhando por breves segundos o noticiário da 13.00, o bar estava vazio e a senhora dormitava sobre uma prateleira recheada com a mais doce pastelaria, bem, pelo menos para mim…Pasteis de nata, donuts, palmieres, pronto é melhor parar por aqui. A verdade é que desde que tudo isto começou nunca mais comemos bolos ou qualquer tipo de pastelaria, pão também é escasso, apenas comemos rações rápidas ou enlatados, mas ainda tenho esperanças de comer algo antes de morrer. A luz vermelha do WC estava acesa, indicando que estava alguém lá dentro, o resto lia o ser jornal ou dormitava…Os tri..
– Mário? Mário acorda...Mário?! Ai que alguém me acude! MÁRIO!! -
Oh não, acalma-te André....mordidela...raiva...morte? Não, não, não....
– André? - Patrícia estava claramente assustada e curiosa ao mesmo tempo.
Sem conseguir pensar numa resposta fiquei a olhar para o vazio durante algum tempo, vim ainda um tripulante a apressar-se para o banco, vi a espuma a bater nos vidros, a senhora do bar a erguer-se para espreitar e vi a televisão com estática a transmitir as notícias com Sócrates a falar de qualquer coisa...vírus...
– Cinzento... –
- Uhm?- Pergunta Patrícia ao ver-me naquele estado de transe.
- O céu...está cinzento. Vai chover... –
- O quê? -
- Chover...sangue...fim. –
- Pára... –
- Uhm? Não vês? Não consegues ver nada lá fora, nem o Sol nem a Lua...as nuvens mataram tudo e esconderam os seus corpos. - Soltei uma risada sádica enquanto olhava para os meus sapatos. Estaria a enlouquecer? Quem não o faria? Estaria o rato finalmente a vencer? Rói rói rói…
– Senhor, está bem? - Disse o tripulante com a mão no seu ombro.
- Oh Zé, vai ali buscar a mala de primeiros socorros! -
- Mário, acorda amor...por favor... –
- Senhor, não se mexa...está ferido... –
- Mário? Mário, filho, estás bem! -
Estaria bem? Mário, o idoso abre os olhos devagar ainda fixados para o rio, brancos adoentados abrem já sem vida para uma nova missão.
- AFASTEM-SE DELE! - Gritei, quebrando a hipnose em que estava.
Levantei-me e ainda dei um encontrarão na Patrícia sem querer, salto para o banco de trás e apanho o meu fôlego.
- A...fastem-se dele! Já...ele está morto! -
- Oh rapaz, está parvo? Veja, está-se a mexer...Senhor, está bem? Quantos dedos vê? -
- Mário, responde ao senhor... –
Mário, pobre Mário. Movia-se com o peso da idade e mesmo depois de morto a idade não perdoava e lentamente virou a cabeça na direcção dos dedos com os seus olhos fixados em mim e neles vi-me reflectido, a minha vida, os que amava...tudo.
– Quantos dedos vê? - Repete o marinheiro com dois dedos no ar, chamando atenção para a sua mão.
Voltado para os dedos, Mário hesitou um pouco e como se me piscasse o olho sem vida deixa cair o seu maxilar deixando à vista a sua boca velha ainda com rasgos de saliva pendente e como um trovão abocanha os dois dedos no ar, arrancando-os do membro com uma força quase sobre-humana.
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH OS MEUS DEDOS! AHHHH FODASSE AJUDEM-ME! -
- Mário!!! Para! O que estás a fazer? Pára!-
O socorrista cambaleia contra um poste e cai sobre o soalho ondulante do barco agarrado à mão decapitada. A sangrar furiosamente este ia perdendo os sentidos enquanto todos os passageiros se encolheram de nojo para as filas de trás. Mais marinheiros vieram ajudar a vítima enquanto outros com a única arma a bordo mantinham Mário afastado e impediam-no de sair.
- Um Arpão? - Falei em silêncio para Patrícia.
- Espetem isso na cabeça! - Gritou a mesma depois de ter lido os meus pensamentos, mas
Estávamos a chegar e nem isso permitiu que se acalmassem. Mário ainda no seu banco esperneava para se mover e sair daquele cubículo, teria mais fome e queria todos aqueles ali à sua volta.
- Mário, amor...que tens? - A sua mulher estava desesperada e queria lançar-se ao pescoço do seu querido, mas não a deixavam e por mais que esta chorasse ou gritasse não a deixavam sair dali.
Finalmente depois de tanto encontrão, Mário foi sido expelido pela física e caiu fora dos assentos e estava agora nos corredores e como qualquer supermercado, teria só de escolher a vitima e já havia uma no chão a espernear de dor. O recente animado lança-se sobre o pescoço do marinheiro amputado e como se possuísse ainda uma réstia de vida olha para a sua esposa com um sorriso macabro, "bom apetite", soou na minha mente e trinca o pescoço pulsante fazendo jorrar uma cascata de sangue sobre a pastelaria do bar.
Nojo, medo, loucura impediam todos de se afastarem, um marinheiro mais corpulento gritava ordens de comando e agarra o canibal por trás e puxa da sua gamela humana apenas para ser mordido no braço e caírem os dois sobre os bancos, dando outro prato rápido a Mário.
- Tic tac, tic tac, tic tac....Tic Fodasse tac.....age! -
Esmurrei a parede e fui de encontrão a quem tinha o arpão na mão e com a surpresa do choque roubei-o e agora com ele na minha posse, tinha de agir.
- Hey rapaz, dá cá essa merda! -
- Pare, ele sabe o que vai fazer. André! - Lançou-se Patrícia ao homem que me vinha tirar a arma, ainda num jogo de empurrões que acabou por perder.
- André!! -
Tinha de ser, era agora ou nunca, eles ou eu! E com uma força que me era desconhecida levo o arpão aos céus como se o benzesse na força divina e deixo-o cair à velocidade da luz, Mário olha para mim extasiado, mas tarde demais. Caí sobre o seu crânio como um trovão e entrando pela orelha, perfurei o seu crânio acabando por trespassar a sua vítima degolada que jorrava sangue sobre os vidros ainda mais sujos. Foi rápido e quase sem esforço graças ao ouvido nem senti a ponta a cavar o cérebro matando tudo o que restava dele...
Silencio....
– Máriooooooo....O que fizeste? Assassino!
– Vai chover hoje... –
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