domingo, 9 de março de 2008

Dia três: Ínicio do fim

- Sara! Está tudo bem? –

Pobre moça, deu um salto enorme que parecia que tinha chocado com o tecto, não é justo gozar com a rapariga, pois todos nós nos assustámos com a aparição repentina daquele senhor, que mais tarde Sara disse-nos que era o seu vizinho do lado. Era uma presença regular na sua casa, é que ele é amigo de infância do pai portanto, são como unha e carne e ele como mora mesmo em frente aproveita todo o buraquinho na sua agenda para dar dois dedos de conversa, mas admitamos, aparecer a esta hora não foi nada conveniente…

- Ai! Porra, agora assustámo-nos os dois, estás bem? –

- Sim…estou…está tudo bem? É que o meu pai não está cá. –

Não foi o único a assustar-se como já tinha dito, a presença dele àquela hora da noite e o jeito com que se apresentou foi no mínimo tenebroso, mas eu sempre disse que havia algo suspeito no homem. Não ia com a cara dele, pronto e agora só veio a agravar…

- Eu sei que o teu pai não está cá, eu só vinha ver se estava tudo bem aqui, é que ainda há coisa de meia hora todos os alarmes dos carros começaram a tocar e vim ver do meu. Aproveitei e vim ver como estava. Coisa esquisita o que se passou há bocado, não?
Estava a pensar ir lá baixo ao baile, comer e beber um bocado, mas depois saí de casa, cheguei ali à paragem do autocarro e pensei que não valeria muito o esforço…iria beber e comer e depois não tinha como voltar e amanhã é dia de “pica bois”, de trabalho sabe? –

- Pois, nós também não fomos, está frio e não gostamos muito dessas coisas. –

- Eu gosto… – Resmunguei para dentro. Afinal, comer…beber e voltar às minhas origens do campo por uma noite, sabia que nem caviar para mim.

- Bem, mas vim aqui mais porque os seus pais iam para fora e julguei que estivesse sozinha e enquanto esperava o autocarro e se ainda via o cometa, reparei em alguém a vir para esta rua, uma mulher a andar devagar, parou um pouco ao pé da curva, ali à frente e depois viu um gato e foi atrás dele. Julgo que seria a dona e andasse à procura do bichano, mas este bufou e fugiu! A menina devia ter visto, ele bufou de tal maneira e correu como se estivesse a fugir do demónio em pessoa, então a senhora tentou apanhá-lo, mas foi tão trapalhona que caiu redonda no passeio, sério! Então decidi vir ajudar e quando lá cheguei…Nada, liguei a luz do telemóvel a ver se via alguma coisa, mas só encontrei borrões de vermelho no chão, espero que não seja sangue e que ela esteja bem porque ainda andei a vasculhar esta rua e não vi ninguém…Bem, vou-me deitar, tranque tudo e durma bem. Comprimentos aos seus pais. – Disse despedindo-se com uma cara triste e preocupada, provavelmente com a senhora. -

- Obrigado, se vir a senhora vamos ajudá-la, não se preocupe... – Respondeu por fim, sem jeito num misto de querer despachar o senhor com uma pitada de honestidade.

Sara ficou ainda na porta a vê-lo sair da sua propriedade até este transpor o portão do jardim. Com o vizinho já no passeio, Sara vislumbra alguém ao fundo a cambalear e nota que o vizinho também repara.

- É a senhora! Está ali…vou lá ter com ela, boa noite! – Acenou dizendo à medida que se aproximava da velha cambaleante.

Agora com os olhos colados ao vidro embaciado continuava a observar a aproximação entre o vizinho e a idosa que se aproximava devagar, parecia uma eternidade e Sara até reparou em nós todos que a observávamos atentamente e suspirou. Estava pronta para regressar, mas o seu instinto disse para se virar de novo para o vidro. O vizinho tinha parado enquanto que a velhota continuava a andar agora um pouco apressada, num gesto de aquecimento este aperta mais o casaco e estende os braços para a amparar, visto esta estar a cambalear muito e a mesma repete o acto e estica os dois braços na direcção do homem, ambos os vultos na bruma da noite de braços esticados um para o outro de forma a receberem-se mutuamente para a eternidade…E num segundo toda uma vida se termina, Sara ainda no vidro presenciou o encontro fatal, a senhora ao estar ao alcance de um braço do seu vizinho, abocanha uma grande parte do pulso fazendo a vítima uivar de dor que se espalhou pelo bairro silencioso. Este na sua penosa reacção puxa o seu braço para trás ao custo de alguma carne rasgada e da sua vitalidade e automaticamente cambaleou para trás tropeçando no passeio, tropelia que lhe custou a vida e aproveitando esta abertura de quando ele olhava para trás de forma a agarrar o muro a assaltante lança-se sobre ele mordendo na jugular exposta fazendo jorrar uma cascata de sangue que pintou os muros e os carros na proximidade de vermelho morte e que fez Sara gritar de dor.

- AH... -

O homem e a velha moribunda finalmente tombam no chão e encaixaram-se na tal eternidade da vida e da morte e este agora a esvair-se em sangue fazia parte de quem tomou a sua alma, alma esta que ia sendo sugada pouco a pouco pela velha babada de sangue, e como qualquer conhecedor de medicina, Sara reparou no último fôlego do morto enquanto este esperneava à medida que ia desaparecendo na boca da sua canibal. Assim terminara a linha de uma vida e constatava-se a fragilidade da existência humana que terminara com um acto samaritano, tanto quanto sei, podia ter sido o primeiro a cair em Portugal, como o último…Mas o que “presenciámos” naquela noite de 4 de Janeiro foi o fim do mundo tal como o conhecemos…


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