- André... –
- Uhm… -
- Ainda a dormir? -
- Quem…quem está aí? -
- Vá lá, não te faças de parvo, acorda. Eles estão a chegar, tens de sair daí rápido! –
- Mas quem está a chegar? E quem és tu? –
- André…Não os ouves? –
- Como sabes o meu nome…? Ok, se o teu objectivo era assustar-me, parabéns, conseguiste…Agora diz-me quem és! –
Acordado do meu transe, vi-me de novo no meu canto, encolhido e a tremer nem sei se era do frio ou do medo que me arranhava o corpo. Os cadáveres ainda permaneciam no centro da sala com o arpão em jeito de cruz no topo das suas cabeças. Abanando ao sabor de uma brisa inexistente, prendia-me com todas as suas forças ao meu canto de clausura. Não era necessário muita força, pois a falta da minha era suficiente para não sair dali. Eu sabia o meu lugar e não iria sair dali, mas algo tinha-me despertado…Uma voz vinda sei lá de onde tinha conseguido quebrar a hipnose que me prendia, eu conheço esta voz!
- Está aí alguém? - Perguntei timidamente em espera de uma resposta, de alguém ou de algo. Não estava ali ninguém...
– Acordaste, óptimo. Vá, procura saíres daí e vem ter comigo. –
- Ir onde? Quem és? – Estaria-me a enganar a mim próprio, pois a voz era terrivelmente familiar, sublinho o terrivelmente pois mal tive a consciência de o ouvir com ouvidos de escutar e descobri quem era, fiquei paralisado. - Ana? – Disse a tremer, temia qualquer resposta. Por favor, não…
- Sim tonto, quem esperavas que fosse? – Meu Deus, era ela, era ela! Como? Porquê? Não entendo, impossível...é tudo imaginação minha! Pára!
- Meu Deus, onde estás? C…como estás? – A minha voz mudara de vara verde assustada do escuro para um tom de preocupação. "Ana como me tinhas encontrado?"
- Estou bem, não te preocupes. Estou mais preocupada contigo…na prisão? Idiota... –
- Matei duas pessoas... –
- Dois zombies... -
- Mesmo assim, eram duas pessoas... -
- Estás parvo? Salvaste aquela gente! O que vai ser daqui a diante se estás preocupado com apenas dois zombies? Sabes que o pior está para vir, por isso tens de sair daí. -
- ... - Sem palavras, afastei a cabeça para o lado deixando o meu cabelo castanho a pender sobre os olhos, sabia que ela tinha razão e que o pior estava mesmo para vir. Mexi com a mão no chão em círculos, desenhando num arco contínuo abstraíndo-me do mundo exterior.
- Ai ai, só tu para te meteres nisso…e agora para saíres? –
- Não quero sair. – Disse ainda de cabeça baixa fixando o chão.
- Desculpa? –
- Não quero sair. – Repeti firmemente como quem tinha tomado uma decisão importante, mas e se quisesse? Não teria meios para tal. Estava numa prisão e isto não é nenhum Prison Break…
- Porquê? –
- Porque estou a pagar pelo meu crime, é o meu castigo. Sinto-me bem aqui. – Disse resoluto da minha decisão, tinha-me habituado à ideia de apodrecer ali como assassino que era. Merecia-o de todo. Duas lágrimas caíram sobre os círculos desenhados na sujidade do chão, não limpei a cara, não era necessário.
- Não percebo, honestamente. Não fizeste de mal, salvaste aquela gente. Porque não sais daí? E agora sê honesto porque não acredito nesse falso conformismo. –
- Aqui…estou salvo do mundo que está a enlouquecer neste momento. Aqui nada me acontecerá… – Seria esta a verdadeira razão para não querer sair? Protecção contra os zombies? De facto, uma prisão era uma excelente protecção contra qualquer ataque seja ele vivo ou morto. Nunca me apanhariam! Estaria mesmo a fugir dos zombies ou de outra coisa? Talvez tivesse com medo de ver os que gosto a sofrer, a morrer e mais tarde reanimarem. Tinha de os matar depois...Um desconhecido era na boa, mas um amigo? Loucura!
A resposta não veio, voltei a chamar pelo nome e nada. Calei-me com atenção não fosse ela a falar de novo. Mas nada, os minutos passaram e a escuridão continuava como um nevoeiro que nos abraça como um casaco de inverno, cada vez mais apertado. Um casaco cheio de claustrofobia e sussurros vindos dos cantos da sala.
- Só pensas em ti? Só pensas no teu bem-estar? Estás bem aí dentro? E os outros? Metes-me pena… –
- Ana…eu… –
- Por favor, não digas mais nada…Foi um erro tentar falar contigo…Julguei que eras outra pessoa, mas saíste-me um egoísta…espero que fiques bem. Adeus… –
- Não te vás embora…Ana, por favor! Não, desculpa…desculpa!
A…na? –
“Estúpido! Estúpido!” Tinha sido tão estúpido, como fora capaz? Estou seguro cá dentro e que se lixe os outros? Meu Deus que barbaridades foste capaz de dizer André! O nojo, quis vomitar aquelas palavras para fora, mas nada saía e as palavras ficavam a borbulhar como uma massa sebosa de merda dentro de mim, remoía todo o meu discurso deprimente e cada vez que o reproduzia sentia mais raiva e ria de mim mesmo, como fora capaz? Levantei-me do meu campo e magicamente as forças que me prendiam, cesassaram de existir. Consegui andar, ainda chamava pelo nome dela em vão, mas as palavras não me saíam. Corri para um canto, soquei a parede e gritei os meus pulmões e finalmente consegui vomitar tudo, tudo o que se tinha passado naqueles dois dias desde a morte, à minha prisão até à conversa com Ana, finalmente estava a digerir tudo de uma vez. Chorei mais, de preocupação, de arrependimento e de medo. Onde estaria ela? Queria tanto ir ter com ela, abraçá-la e encher-lhe de alegria, quis sair dali. Por fim consegui recusar a ideia de penitência e tomei outra decisão, ir ter com ela e desculpar-me pessoalmente!
Não só a desiludi, como a mim mesmo…A vergonha…Ana perdoa-me…André...tentamos de novo?
- Não te preocupes Ana – O nome dela saiu agora normalmente, o frio transformou-se em calor e sentia-me mais humano, mas ainda continuava escuro. Os cadáveres desapareceram. Absolvição?
*
- Hey, chavalo. Acorda. –
Abri os olhos para os fechar logo, estava ainda na cama na prisão, na mesma cama suja onde me tinha deitado, Não sabia se tinha dormido minutos ou dias, mas sentia-me na mesma. Um cansaço psicológico que não me largava desde há um dia e ainda não tinha recuperado.
Não abri logo os olhos, deixei-os marinar um pouco e habituar-me às formas na sala, pouco a pouco iam-se abrindo e consegui delinear uma luz ao fundo, uma pequena lâmpada amarela velha pendia do tecto sujo do calabouço e à volta da mesma várias traças orbitavam à sua volta elipticamente como um pequeno sistema solar de bolso. Um tuc tuc fazia-se ouvir devido ao ocasional choque das traças contra à lâmpada e lá se ia a minha teoria do sistema solar, por esta altura já tinha havido uma dúzia de pequenos Big Bangs. Não distinguia mais nada lá dentro além das outras celas, lá dentro como espelhos da minha só estavam presentes uma cama e uma sanita, mas vazias. Ouvi uma pequena barata a andar pelo chão e a desaparecer tão rápido como apareceu, sentia-me sozinho para além dos insectos, mas não estava. Todas as celas estavam vazias, excepto uma, ao meu lado. Conseguia ouvir o respirar de alguém no outro lado da sala, pesado mas ao mesmo tempo descontraído, pausado de vez em quando para mascar qualquer coisa seguido de um cuspo para chão.
- Quem é a Ana? –
- Hum? –
- Ouvi-te a gritar por ela enquanto dormias, deve ser boa mulher essa tal Ana. -
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