Tudo o que acabámos de ver foi tão difícil de acreditar, tão difícil de digerir que só conseguimos engolir em seco, na vaga esperança desta bola mucosa de morte e terror fosse para baixo. Teria sido um sonho? Algum spot publicitário? Algum filme? O ecrã apenas mostrava “ More news later”, nada mais…Mais nenhum canal mencionava o sucedido e eram preenchidos com futilidades noticiosas do mundo cor-de-rosa de um sábado de manha…
Foi preciso o repetido buzinar do carro da Sara que havia chegado para nos despertar daquele transe em que estávamos. Na televisão passavam agora as últimas notícias sobre o desporto, completamente fútil face ao que acabáramos de ver. Sara voltou a insistir no buzinão até desistir e sair do carro pronta a refilar com a gente por causa da demora da resposta, decidimos por bem de todos e da nossa sanidade omitir o que vimos, mas era totalmente impossível esquecer aquela reportagem, mas o que raios se tinha passado? Romero? Tinha de correr para a internet e procurar mais sobre aquilo. Se calhar foi só sonho? O que pensavam os outros que estavam comigo? Ninguém e incluindo eu tinha aberto a boca durante todo o caminho, o rádio tocava a sua balada habitual e anunciava os cinco minutos para as noticias da tarde, mas eu estava a milhas daqui com o meu mp3 enfiado nos tímpanos a relaxar com as minhas músicas de eleição, não era o único pois atrás de mim, Guilherme, um rapaz de estatura alta olhava para baixo com ar sonolento também com os seus headph0nes pendurados nos ouvidos. De cabeça baixa encostada ao banco da frente brincava com um pequeno papel que tinha encontrado no chão e fazia-o dançar por entre os dedos e de vez em quando ajeitava o seu lenço arafat ao pescoço nem sei se era para se manter aquecido ou por uma questão de estética, mas religiosamente ia lá e compunha-se todo. Ao seu lado sentava-se a sua irmã. Patrícia que olhava para fora da janela com um olhar aquilino sobre o nada, parecia monitorizar os transeuntes controlando a sua passagem. Talvez a descortinar os normais…dos zombies? João, no meio dormitava em sentido quase militar, sem deixar cair a cabeça, às vezes parecia que estava acordado, mas o seu ressonar denunciava-o.
A viagem foi calma, havia pouco trânsito na rua e ainda menos gente a passar, estava tudo refugiado em casa da chuva e do assassino macabro de ontem à noite, mas a verdade é que raramente se via vivalma, tirando uma ou duas pessoas audazes.
Já na estação estavam os restantes que esperavam a locomotiva de regresso e acompanhando-os estava um pequeno gato vadio que andava pela estação alimentado por almas caridosas que sentissem pena e ali estava ele no colo de um deles, aninhado para uma sesta de cinco minutos que para o bichano era uma eternidade de comodidade e afecto.
Quando nos viram a aproximar abanaram no ar uns bilhetes, deviam ser os bilhetes de comboio, tinham-nos tirado para nós para que não tivéssemos de esperar e por consequente não perder o comboio que se aproximava.
Os que já se encontravam na estação estavam já um pouco animados e a brincar com o bichano e por momentos esqueceram a noite de ontem, mas nós estávamos atónitos com o olhar prostrado no vazio sem ar atenção a nada à nossa volta e tenho de me incluir aí pois eu estava completamente absorto numa conversa amena com os meus botões e de mp3 na cabeça fixava o horizonte da linha de comboio tentando palmeá-la até ao seu fim, nem dei o pelo aproximar do comboio que parou mesmo com a porta à minha frente e quando esta se abriu parecia que me estava a convidar a entrar, um escape quiçá e uma nova oportunidade, mas ao mesmo tempo tinha algo de sombrio e irónico e uma vez lá dentro sentei-me ao fundo da carruagem e encostado ao vidro corri lado a lado com o comboio para ver quem chegava primeiro ao seu destino, escusado será dizer que me cansei e adormeci nos pequenos cinco minutos de viagem.
Gritei bem alto, gritei por alguém, gritei socorro e depois sem qualquer resposta gritei blasfemidades incoerentes e desatei a rir no meio da minha insanidade acabando por tropeçar num ramo no chão e tombar sobre o cobertor castanho da floresta, ri-me ainda mais, nem sabia o que se estava a passar no mundo e já estava a perder o juízo, "Boa André!" disse alto, durante anos que sempre fui o herói nas minhas histórias mentais e agora estava a perder a puta da cabeça! Lentamente levantei-me e inatamente levei a mão à boca para tentar impedir o inevitável, comecei a vomitar violentamente relembrando as imagens nojentas de gente a perder membros ou a serem estripadas.
Quando terminei ainda me sentei um pouco para recuperar os sentidos e encostei-me a uma árvore e por tudo o que era sagrado tinha de forçar à cabeça pensamentos positivos afim de me livrar desta náusea, lembrei-me então do cometa a passar por cima de mim porque foi a última coisa bela que eu vi e lembrei-me de várias coisas quando era criança e agora estava melhor e estava prestes a dormitar quando sou acordado por uma violenta explosão.
Levantei-me e segui o fumo, ainda demorei uma hora a chegar à origem do mesmo e nem quis acreditar no que vi quando lá cheguei. Estava perante uma outra floresta, uma floresta de betão, ferros e vidro. Uma enorme cidade que parecia Lisboa prostrava-se diante mim, mas estava num estado completamente irreconhecível, as ruas estavam entupidas de carros cheios de malas e bugigangas inúteis atados com cizal ao tecto da viatura e lá dentro estavam típicos portugueses a desgastar a buzina como se fossem fazer desaparecer o congestionamento. Algumas nos carros e outras a correr de um lado para o outro a gritar por ajuda e à medida que rodava a cabeça para ver melhor o meu cenário via a situação a piorar, ao fundo da avenida via uma enorme parada militar com trincheiras e tanques apontados para outra multidão de pessoas que vinham na sua direcção a cambalear...Não eram pessoas! Eu sabia que não eram, mas não queria aceitar!
-FOGO! - Ouviu-se esta ordem várias vezes repetida através de um megafone e ao sinal de partida toda a artilharia foi descarregada no exército morto-vivo e muitos tombaram ao mesmo tempo que os soldados se regozijavam de vitória. Fumo. Não se via nada. Este acentou descortinando um desfecho já esperado. Mal a poeira acentou viram outros a tomar os seus lugares e muitos dos que tombaram continuavam a andar ou a rastejar ainda no seu encalce e pouco depois começou-me a cheirar mal, um cheiro putrefacto escalou-me as narinas com tal violência que me quase deitou por terra, o cheiro aproximava-se o que fez com que me virasse para a esquerda rapidamente mesmo no momento exacto para me livrar de alguém que me vinha atacar, no meio do meu acto de ginasta tropecei e cai de rabo numa clara desvantagem em relação ao meu atacante, estava a vê-los agora de perto e isto batia qualquer filme de Romero em alta definição, um senhor que devia estar nos seus 40 e tais anos vinha atrás de mim com os braços abertos para me agarrar, isto tudo com um aspecto nefasto, vestido de fato e gravata que tinha perdido a cor preta estando agora manchado de sangue e poeira dava um ar ainda mais medonho, o seu fato estava roto na camisa revelando bocados enormes de vidro espetado no seu externo acompanhados com sangue de cor castanha que devia estar já coagulado e a sua gravata pendia no seu pescoço e mexia-se como um ponteiro de relógio acompanhando o seu cambalear.
-Pare! Por favor! - Implorei com lágrimas nos olhos.
Mas foi sem resposta, pois ele não me ouvia e não havia nenhuma consciência ou piedade naqueles olhos brancos sem vida que olhavam o vazio, toda a sua humanidade tinha sido perdida talvez quando aqueles enormes cacos de vidro se alojaram no seu corpo, teria tido uma morte lenta enquanto se esvaia em sangue, mas agora estava ali a andar e prestes a tirar a minha vida numa espécie de vingança. Mas no mesmo sitio onde tropecei, ele também tropeça e nisto ele vem a cair a alta velocidade na minha direcção até que os seus braços me agarram nos ombros e a sua boca começa a ficar maior à medida que se aproximava de mim, aqueles dentes amarelos de uma vida tabagista viajavam ao meu encontro juntamente com aquela boca sem fôlego de hálito podre.
Só tive tempo de cruzar os braços em frente à minha cara para impedir que este caísse sobre a minha cabeça, ainda agarrado a mim começou a segunda fase e passou a tentar morder-me o que conseguiu passados poucos segundos de luta pois eu estava em desvantagem e a queda dele tinha-me enfraquecido.
Ainda me conseguiu arrancar um bom bocado do braço esquerdo e agora perdia as minhas forças para qualquer defesa, mas em breve ia tudo terminar, iria morrer e iria acordar deste sonho...?
Uma salva de tiros roçou-me o corpo e o corpo em cima de mim ficou imóvel por fim atirei-o ao chão e deixei-me estar ali a rir e a chorar enquanto agarrava o braço com força, um grupo de pessoas corre para mim com armas na mão e ao verem-me neste estado a sangrar do braço apontaram a arma à minha cabeça.
– Ele foi mordido...não tem outra opção... –
- Mate-o então...pobre rapaz. -
Com a vista a turvar vi o vulto armado a benzer-se, disse algo que não compreendi e puxou do gatilho.
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