Como um pequeno e assustadiço exército todos recuaram um passo atrás em marcha combinada, as cabeças aproximaram-se umas das outras formando uma muralha num silêncio irrequieto e os olhos escalavam o prédio tentando entrar pelas janelas. Estava tudo calado, falavam por telepatia, comentavam o grito e de olhos fitos no prédio procuravam movimento, algo que denunciasse o autor do grito estridente. Não arredavam pé dali, mesmo se as suas vidas estivessem em perigo… Portugueses, esta gente gostava de espectáculo…
Quanto a mim, o grito tinha-me deixado com pele de galinha e mesmo com todo o equipamento em cima, sentia frio… um frio que me congelava as pernas impedindo-me de avançar. Estava petrificado tal escultura de gelo, apenas os meus olhos se mexiam. Olhava para a porta ainda fechada, observava as sombras a chamarem-me, sombras de enormes chamas negras que me iriam consumir assim que entrasse e nunca mais sairia dali vivo.
- Que estás à espera? Leva esses dois homens contigo e sobe! – Gritou-me o Capitão, alguém ainda está vivo e com alma, porque não sobe ele?
Tudo me impedia de subir, o meu coração, a minha consciência, tudo menos o medo de ser despedido. Não podia perder este emprego e o meu ganha-pão, não podia ir para as ruas, não ia aguentar! Embora o meu corpo teimasse em ficar no mesmo sítio, congelado não pelo medo, mas pela sanidade, tinha de avançar. Compus o capacete e apertei o casaco. Ajustei a mascara por causa do gás e abro a porta. Dou o meu primeiro passo.
Tenho os olhos fechados, estou protegido de tudo o que puder aparecer. Não vejo nada e ninguém me vê. Tal era falsa a crença que esbarrava em tudo. Mas os olhos não estavam fechados, o prédio estava mesmo escuro, negro como a capa da morte que se aproxima de nós. As chamas aumentavam.
Atrás vêm dois colegas meus, José seguia atrás de mim apalpando o corrimão suavemente como se fosse mais uma das suas mulheres. Tratava a barra de ferro com tal carinho e respeito, esperando ser recompensado, ajudado quando precisasse. Estavam numa união de tal simbiose que nem me atrevi a tocar no corrimão. Seguia então no meio do corredor com ambos os braços abertos arrastando as luvas na parede. Não se podia acender nenhuma luz com perigo de explosão, portanto até selarmos a fuga, nada de faíscas ou então Boom! Andámos uma eternidade mais ainda estávamos perto da porta da entrada agora fechada. Não víamos ninguém lá fora devido ao vidro estar embaciado. Acendi a lanterna do meu capacete e os outros seguiram.
- E fez-se luz! Vamos lá desligar isto e ir para casa que tenho fome. Baza! – José seguiu de encontrão, ri-me porque era acolhedor ver alguém bem-disposto apesar do que se passava. Acho que nos habituamos a isto, mortes, desastres… sangue… Acho que temos de saber retirar o bom nisto tudo…
Felicidade tingida de sangue, gargalhadas de dor e sorrisos estropiados…
Carrosséis de choques em cadeia, estradas decoradas com membros, estuque de sangue, crianças… o melhor eram as crianças! Chamas! Mor-
Calma! Respiro e sacudo a cabeça para afastar as imagens grotescas que passavam como filme na minha cabeça. Estou de novo sozinho, os outros seguiram à minha frente, ouço-os nas escadas a correr até que tudo fica em silêncio. Estou sozinho… tenho como companhia a linha ténue da luz do meu capacete que se estende diante mim como um túnel de luz que vai mirrando, um túnel sem saída, sem esperança para além da escuridão. Uma pequena passagem ilusória de segurança onde ninguém podia atravessar. O fim era o inferno escuro com chamas negras que crepitavam em silêncio. Esperavam por mim…
A luz, o Sol, o fogo. Em toda a minha vida sempre vi neles segurança, um porto de abrigo, uma espada sagrada que trucidava a escuridão e tudo o que se escondia nela. Quando era mais novo brincava com lanternas a fingir que eram pequenos sabres de luz e andava com isso pelo meu quintal à noite. Era o rei da noite, ninguém podia contra mim. Eu estava com a luz. Agora estou no escuro… Não tinha o calor do Sol para me aquecer o coração e o fogo para afastar os medos de mim. Estava sozinho num paradoxo gigante. Era bombeiro e a minha missão era apagar o fogo, extinguir a luz. Fui abandonado como por castigo. Trabalho sempre de noite, o Sol abandonou-me. Sou o primeiro a entrar nas chamas, o primeiro a queimar-me, a sacrificar-me por tudo o que fiz. Um oceano de sangue e sofrimento é a minha penitência, choros de crianças enquanto lutam pelo último fôlego. Peles que se descolam como papel de parede das pessoas que outrora as vestiam. Muitas delas ainda vivas. NÃO AGUENTO MAIS! Estou no limiar da insanidade, não estou sozinho enquanto pensar assim, sinto-os a todos que morreram a arrastarem-me para as chamas negras…
Estou sozinho, falta-me o ar como se este não existisse. Está tudo tão calado. Respiro na máscara e subo o vão de escadas, todas as portas no meu caminho estão abertas, eles estiveram aqui. Grito por eles e nada, ruídos abafados, algo cai… Subo ainda e passo a correr pelas casas desertas. O Sol como um transeunte curioso espreita para dentro, estava a amanhecer…
Finalmente apanhei-os.
- O filho da mãe mordeu-me! – Disse José.
-Hum? – Respondi enquanto recuperava o fôlego.
- O velho! Está vivo, vê lá. –
- E a mulher? –
- Não a achámos. –
- Chamaram? –
- Sim, nada. –
- Onde está o senhor? –
- Com o Marques, ele está a tentar acalmá-lo… -
- Boa sorte com isso – Respondeu o outro soldado que estava encostado à parede.
- A fuga? –
- Já está. Está tudo a arejar. Vou descer. Vêm? –
- Yeah, merda. Tenho de tratar disto… está a ver esta porra? – Responde José que agarrava na mão e sugava o seu próprio sangue. Aproximou-se de mim e tirando a boca mostrou-me um rasgo na mão que esguichava sangue.
- E tiraste a luva porque? –
- Comichão! Depois o velho apareceu do nada e mordeu-me! Fodasse para isto! – Voltou a pressionar a ferido com a boca e desceu resmungando.
- Tira daí a boca, que nojo! –
- A saliva desinfecta. E eu gosto do meu sangue – Olho para mim com cara de gozo. – Sou um vampiro. Uh, vou-te morder! – Riu-se enquanto descia.
- Devias ter visto, o velho não largava a mão dele. O Marques teve de usar o machado para se meter no meio. Empurrou-o para um quarto depois, ainda não saíram. Parecia um filme de terror! Saiu um bocado de carne quando eles se separaram. E o sangue? AH! Bem, desçam rápido… - Seguiu atrás de José falando no rádio. Tudo controlado. Fuga arranjada. Sobreviventes no prédio comunicou ele.
Estou sozinho de novo, o Marques estava lá dentro com o velho.
- Marques? – Chamei. Nada…
Entrei na casa já algo iluminada, era bom ter o Sol no meu lado agora. Fui para a sala, onde se tinha dado o ataque e quando lá chego havia uma linha condutora de sangue que espirrava às paredes como um quadro abstracto. Merda, ainda saltou um bom bocado! Deve ter doido… Haviam coisas espalhadas no chão, parece que ainda houve festa cá dentro, sinais de luta violenta, olho em volta e encontro o rasto de sangue. Tal como segui a luz da minha lanterna, segui a luz brilhante do sangue que me seduzia para um quarto. Pé ante pé, preparado para fugir, abri a porta onde tudo terminava. Silêncio.
- Sargento Carlos. Fala base, qual a situação? Escuto. –
Merda, até saltei! Maldito timing! Quase que me saltou o coração!
- Fala Carlos, situação por definir base. Procuro o Cabo Marques que ainda deve estar com a vítima. Escuto. –
- Afirmativo. Escuto.
Há outra chamada no outro lado da cidade numa funerária. Outras viaturas encontram-se neste momento ocupadas ou em manutenção. Se não se importar, traga-os para baixo, está aqui o INEM. Escuto. –
- Afirmativo base… - Respondi. – Portugal e as suas belas condições… -
Desisti da lentidão, do suspense a conta gotas. Atirei com a porta contra a parede e de inicio não vi ninguém. Apenas uma cama e um monte em cima da mesma.
- C-Carlos, ainda bem que aqui estás… ele. Ele está louco! LOUCO! Tive de o matar, vês? –
- MEU DEUS, que se passou aqui? – Corri para ele que estava no chão.
- E-Ele mordeu-me… arrancou-me a orelha. Empurrei-o e ele avançou de novo para mim. Aquele som, aqueles olhos! A c-cara dele! Estava com medo e com dores! Ele cai em cima de mim, se não fosse pelo fato! Este fato salvou-me! SALVOU-ME! Atirei-o ao chão. Ele caiu! AHA… - Ria-se dementemente como um moribundo às portas do inferno. Afastei-me dele e observei o cadáver – Ergui o machado! Não o queria matar! Foi só para o ameaçar, mas rastejava, mordia-me as botas e arranhava-me as pernas, não consegui gritar. Mandei-o parar várias vezes e nada! O machado caiu-me das mãos e só parou nas costas dele! A lâmina toda espetada até ao fundo! E ELE AINDA SE MEXIA! – Aqui o riso demente aumentou de tom assustando-me, soluçava enquanto chorava baba e ranho, mas ainda se ria… – Tinha perfurado os pulmões e o filho dum demónio ainda guinchava, queria mais! Puxei o machado e ele veio atrás, atirei-o contra a parede e contra a cómoda até se soltar. Caiu na cama, virou-se para mim, tinha a cara desfeita do choque, o sangue seco escorria para os lençóis. Aquele gemido de morte seca! Um olho cai no chão e nem se importou! Olhava para mim! Atirou-se… Não aguentei… Fechei os olhos e quando dei por mim, tinha rodado e perdido o equilíbrio, escorreguei para aqui e caí. Olhei para cima e ele não se mexia mais. –
Na cama jazia no leito de sangue uma figura que outrora foi um ser humano idoso, a cara estava praticamente desfeita, mas ainda se via o esgar de horror, fome, pecado. O machado estava cravado no lado esquerdo do crânio…
- Pronto… acabou. –
- Acabou? Matei uma pessoa meu! Matei! Vou ser preso! – Nisto ele levanta-se do chão e caminha para mim. Noto na sua cara o mesmo tom de perdido do velho, os olhos esbranquiçados e a saliva não engolida adicionavam-se a este plano de horror. Ele começou a gemer e ergueu os braços na minha direcção. Abraça-me.
- Não consigo viver assim… Morreria na prisão. Não durava um dia meu. Adoro-te… - Empurra-me contra a parede e corre para a janela. Num momento está tudo calado e noutro a seguir ouve-se uma explosão de vidro. Um grito lá fora.
Estou novamente sozinho…
Um comentário:
TRISTEZA TOTAL
o verdadeiro nuno markl revelado num email a um fã. DIVULGUEM, os amantes do humor em portugal merecem ver isso
http://overdadeironunomarkl.tumblr.com/
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