- Tirem o rádio à miúda, antes que faça mais barulho. –
E então num gesto relâmpago roubam o rádio à pobre criança deixando-a impávida e serena e surpreendentemente calada, compreendendo a situação e acenou limpando as lágrimas.
- Desculpa mamã. – Disse deitando-se no leito de uma senhora ao lado que a abraçou de volta.
Onde estaria? Que sitio era este que até as crianças estavam solidárias com a causa, qualquer que seja a causa? Bem, levantei-me e deitando um último olhar pela sala prossegui lentamente pela porta que nem parecia já uma porta, apenas um buraco na parede decorada com disparos dos últimos inquilinos que ali moraram e com o estuque a cair de gasto.
- Hey, a tua arma…não a deixes ao pé de crianças… – Disse a tal senhora com a criança do rádio no seu colo já a dormir.
- Hum? A minha arma? –
- Sim… –
Pois, supostamente neste universo paralelo tenho uma arma, isto estava bom.
Viro-me para todo o lado pateticamente à procura de uma arma que eventualmente possa ser minha e dou de caras com ela ao meu lado. Era uma espingarda não muito grande, e ao pegar nela constato que se trata de uma Heckler & Koch G36, ou simplesmente G36, a pobre arma estava tão suja quanto eu e um tanto amolgada como se já tivesse visto muita acção. Era linda! Preta com pequenos tons alaranjados encaixava-se nos meus braços como uma extensão natural dos mesmos, soube-me bem e deu-me a sensação de que já tinha tido muitas experiências com ela ao que confirmei com a minha agilidade ao destrancar a segurança e tirando o carregador. Estava deveras admirado com a minha recente mestria, para quem nunca manuseou armas…Voltei a montá-la e pu-la a tiracolo puxando da sua fita, posto isto segui caminho pela tal passagem que dava para um corredor escuro, este já sem qualquer iluminação.
À medida que seguia e passava pelas janelas vazias do corredor ia conseguindo saborear as diferentes fragrâncias que o meu nariz captava, era difícil ignorar, visto que o prédio emanava um cheiro forte a putrefacção que se misturava com a humidade da noite e para ajudar a este maná de cheiros, pequenas vagas de fumo de diversas explosões juntava-se e não só, a morte...Meu Deus, era horrível!
O que raio se passava aqui? Estaria a sonhar? Demasiado real para ser só um só sonho. Esfreguei a cara e passei a mão pelo meu cabelo despenteado agora um pouco oleoso. Há quanto tempo não tomava um banho? Sabia lá eu, Mas também não era tempo para pensar em tais coisas tão triviais, pois tinha de sair dali e à medida que andava pelo corredor ouvia passos e vozes lá fora, Bem, não adiantava ficar sem fazer nada a questionar-me de tudo, iria saber o que se passava em breve e com um pão na mão que tinha apanhado perto da minha cama fui para a rua onde a noite ia ainda alta e uma multidão fazia o máximo para que não se ouvisse nada, todos gritavam em sussurro uns com os outros e aquele zumbido tornava-se mais irritante que qualquer chinfrim.
- Hey! André! Ainda bem que já acordaste, temos aqui uns problemas – O mesmo rapaz de há bocado estava com um grupo de pessoas, a sua feição tinha mudado, estava preocupado com algo e o resto do grupo acompanhava-o nas suas lamentações.
- André, bem, como já sabes as ruas estão todas bloqueadas, ele são carros abandonados ou barricadas ou então os nossos amigos que ainda deambulam pela estrada e com isto vem um problema maior, há muita boa gente que não pode andar nestas "cavalgadas", temos algumas baixas e os veículos não poderão ir, e isso inclui o nosso blindado de reconhecimento! O que sugeres? Arriscar e ir a pé? Deixar os feridos e blindado aqui? Qualquer das opções é má, para não dizer pior, mas algo tem de ser feito... Dividimos rações e algumas munições e seguimos? -
Boa, atirar a batata quente para mim, mas o que raio se passa aqui? Estamos em guerra? Portugal meteu a pata na poça? Bem, já era altura de atacarem Portugal, Londres e Madrid já foram, mas havia algo aqui pior que um simples atentado, estávamos em guerra! Mas em guerra com quem? Mas agora eu tinha de dizer algo...sei lá...do nada abri a boca.
- Não, não iremos deixar aqui ninguém, supostamente lutaram ao nosso lado... E portanto não iremos fazer tal barbaridade, em relação ao blindado, talvez se formos devagar consigamos abrir caminho. - Foi o melhor que consegui dizer naquele momento.
- Ok...André, então reúne o pessoal e diz-lhes isso. Vou ali a ver se mijo, mas diz-lhes exactamente o que me disseste, aposto que a maioria não deve ficar contente. E André, despachem-se, se o reconhecimento não falhou, disseram-nos que eles andam para norte, muito em breve chegarão aqui. -
Mas eles quem? Merda, não entendo nada! Sou algum líder?
- Estás perdido? Tenho te estado a observar, andas um pouco estranho desde ontem à noite, pudera, depois do que se passou. Mas conseguimos, ouviste? Não te deixes ir abaixo porque precisamos de ti! -
-Sim, tens razão...tu... – Respondi com um pouco de curiosidade.
- Patrícia, agora esquece nomes... Vá, arranja a cabeça. -
- Patrícia, esta rapariga de aspecto sujo e um pouco masculino viera me confundir mais, pelos visto eu participei numa batalha, boa, agora sou um soldado e pelos vistos eu sou mesmo uma espécie de líder.
-Patrícia, consegues fazer chegar esta mensagem a todos? Ou então reuni-los que eu depois digo o que tenho a dizer – Disse um pouco engasgado.
- Com certeza chefe... –
E findo o seu pequeno discurso, piscou-me o olho e afastou-se, que miúda mais estranha, vestia-se como um homem e portava-se como tal, mas nos seus olhos conseguia pescar o seu lado feminino a chorar que rogava para que tudo terminasse, queria voltar a usar saias e ser fútil para falar de compras, mas o hoje obrigava-a a esforços hercúleos e os produtos de beleza eram substituídos por tintura de iodo e gazes que tomavam a vez de lindos colares e bugigangas do mesmo estilo.
Pouco depois voltou acompanhada por mais uma rapariga e outro rapaz, sendo estes mais baixo e alto respectivamente, vinham armados com as mesmas armas que eu, algo estandardizado ali pelos vistos, com as armas veio também um megafone, a sua excelente ideia para reunir a multidão...
– PESSOAL, O ANDRÉ TEM ALGO A COMUNICAR! PODIAM VIR CÁ FORA NUM INSTANTE? TODAS AS TAREFAS IRÃO SER RESUMIDAS DEPOIS DISTO –
- Cala-te pá! Eles ouvem! – Gritou alguém do fundo.
Foi o rapaz alto quem fez o comunicado e depois passou-me o megafone, mas que voz tem ele! Toda a gente como hipnotizada veio para o pé de mim, vinham constrangidos, embora fingindo felicidade, apoiados ora nas suas armas ora nos seus camaradas iam-se aproximando de mim como se fosse alguma espécie de messias.
Bem, chegou a minha vez de falar:
- B…boas noites, estão me a ouvir? Não posso falar muito alto. -
- Sim...sim – Respondeu uma multidão curiosa.
– Sim? Ok... Bem, foi me comunicado que temos de partir em breve, para sul suponho e procurar novo asilo... segundo os últimos relatórios da equipa de reconhecimento, eles estão a norte e devem estar bem armados... –
- O que raio está ele a dizer? Armados? - Ouvia-se este burburinho por entre os ouvintes que ia aumentando, enquanto olhavam uns para os outros com caras de parvo.
- O que ele está a dizer é que temos de sair daqui rápido! - Acudiu Patrícia, visto eu ter perdido a total concentração dos ouvintes, mas ao ouvirem a voz dela voltaram a olhar para mim e então retomei o discurso.
- Exacto, temos de sair aqui, mas o problema é que as ruas estão obstruídas e isso constata-se num grande problema para muitos de vós, muitos estão demasiado feridos para andar, quanto mais treparem carros e entulho! Então decidi e espero que esteja no consenso de todo dividir-vos em dois grupos, enquanto uns ficavam cá a descansar e/ou a curarem-se com as rações e um pouco de munições deixadas por nós, outros iriam à frente com o nosso blindado e iríamos abrir caminho lentamente e limpávamos qualquer ofensiva ao longo da rua e depois, vínhamos cá buscar-vos! –
Acho que fiz um bom discurso, nem me engasguei muito.
- André?! Mas e se eles aparecem? Não os conseguiremos afastar! Ou vamos todos ou não vai ninguém! –
Pronto, a multidão enfurecida começava a protestar como um bom português.
- Bem, sempre temos outra alternativa...matá-los a todos. – Disse o rapaz do megafone.
Bem, mas para que foi isto? Além de uma boa voz a sua maneira de pensar era tão aguda como uma faca.
- Temos de ser sensatos, nós só os íamos atrasar, André, deixa aqui o que achares necessário e por favor sejam rápidos a regressar! –
Finalmente uma voz sensata que infelizmente iria gerar uma explosão de discussões e contra-argumentos.
Fragilidade, cansaço, moral, falta de comida, médicos, tudo faltava ou estava a mais, infelizmente tudo o que era mau é que estava a mais, dêem-me paciência, parece que estou na quinta dimensão...
– André, vamos começar a dividir os mantimentos enquanto eles discutem, simplesmente não temos alternativas mais viáveis, não agora, anda. - Disse Patrícia ao qual a segui estupidamente sem saber onde ir, ela levou-me a mim e a alguns para uma enorme garagem fria, nela estavam estacionados dois jipes todo-o-terreno e um blindado; baús gigantes tinham enormes letreiros a dizer armamento, enquanto que caixas de cartão continham comida enlatada, tínhamos alguns animais vivos, mas só uns coelhos e umas galinhas, não dariam para muito; o que faltava ali àquele quadro eram medicamentos onde só restavam umas quatro caixas, mesmo à justa para a divisão...
- Mãos à obra pessoal. -
Um comentário:
coitado do andré que nao se lembra de porra nenhuma...lol
deve ser frustrante
um post simples, que continua cativante...plo menos eu ainda não me cansei de ler ^^
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