sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Dia um: Segredos da noite.

1 de Janeiro de 2008
09.15·

Esta vai ser a minha primeira gravação, em prol da nossa sobrevivência vou recuar uns dias antes de tudo ter acontecido, vai ser a minha versão de como tudo começou e se desenvolveu. Peço desculpa se me alongo em alguns factos que possam parecer fúteis ou se olvido outras coisas, mas a minha memória está um pouco turva e o facto de estarmos sempre a correr e a mudar de sítio, não ajuda nada. Terei de ser breve nos meus diários, isto é uma constante luta que nunca acaba até eles acabarem, tudo o que virem aqui é puramente real! Nada é ficção, mas por esta altura já o devem saber. Estamos em guerra e estamos a perder...
Então vamos lá começar isto:

"Era o primeiro dia do ano e já estava a começar mal, depois daquela festa de Ano Novo, como poderia começar bem? Tirando o facto que me deitei tardíssimo, ou seria cedíssimo, tendo em conta que já era de madrugada?
Não interessa, os ponteiros batiam já as nove horas da manhã e foi quando acordei pela primeira vez, estava um pouco remelado e atordoado, porra que dor de cabeça pensava enquanto a apoiava com a mão esquerda, tinha o quarto a girar à minha volta, tal qual diversão numa feira popular. Mal me conseguia equilibrar e deixei-me cair de novo na cama e fiquei a escutar o silêncio da minha casa, ainda dormiam um sono pesado e a chuva foi a primeira a madrugar, vem mesmo a calhar esta chuva, é um sinal de mudança deste novo ano, que vai tudo correr bem.
Ainda com a cabeça a latejar deitei-me apenas para descansar os olhos e pus-me a pensar nas minhas resoluções do novo ano:

  1. Estudar mais;
  2. Jogar menos;
  3. Procurar um trabalho;
  4. Etc.

"Ah que seca, acho que vou mas é jogar!" decidi ironicamente contrariando qualquer resolução prévia, mas a dormência do álcool de ontem venceu e caí novamente na cama com a cabeça na almofada a ouvir a chuva que já caía com força. Batia nos meus estores com tamanha força que parecia que alguém estava a tentar parti-los e entrar dentro no meu quarto, lá fora a chuva cobria tudo no seu infinito como uma capa limpando e protegendo do futuro vindouro, podia-se sempre confiar nela.
Comecei a adormecer lentamente a lutar contra os meus olhos, pouco a pouco iam-se fechando, as formas do meu quarto iam-se turvando até que desisti e deixei-me levar…
- Hey, André! Acorda pá! Não é altura de dormir, temos de ir antes que escureça. Não adianta levar os carros, as estradas ainda estão bloqueadas, ainda existem muitas barricadas montadas e quase todas as ruas estão obstruídas! Estamos completamente enfiados numa autêntica armadilha humanas sem qualquer saída. Temos de fazer corta-mato por entre a confusão, escalar merdas e quiçá atravessar por entre os prédios. Sempre evitámos as grandes cidades e agora cá estamos! Se não fosse pela falta de medicamentos, ai…Vá, prepara-te para irmos ao Hospital. –
Abro os olhos mais rápido do que os fechei, tinha dormido quanto tempo? Não estava no meu quarto e não reconhecia onde estava, o que se estava a passar?
Lentamente levanto-me e encosto-me à parede da sala onde estava e dou uma vista de olhos pelo cenário, estava escuro e poucas lâmpadas estavam acesas, via algumas pessoas encostadas à janela de binóculos postos no horizonte, alguns tinham ainda algumas armas que guardavam a tira colo, eram armas de longo alcance e variavam desde a antiga carabina à mais recente arma de tiro furtivo, mais conhecida pela Sniper. Não conhecia ninguém dos armados e piscava os olhos de confuso enquanto perscrutava a escuridão do meu quarto à procura de mais alguma coisa, vi mais pessoas a dormirem ao meu lado, algumas liam junto à escassa fonte de luz e outras conversavam enquanto me lançavam olhares de esguelha.
Ao pé de mim reparo num jovem rapaz, o que me acordou, estava sentado ao meu lado com um aparelho na mão, mais tarde vi a saber que era um GPS, ostentava um casaco desportivo já muito gasto e era impossível ler o slogan do mesmo devido a tanto pó que tinha, pó e pequenas manchas vermelhas, sangue?
- Carrega a tua arma. Come qualquer coisa e anda, vou lá para fora...Mas despacha-te... –
Carrego a minha arma? O que estaria ele a falar? Lá se levantou dando-me um último olhar e ajeitou-se o seu cabelo castanho a dar para o longo, desceu com as mãos à cara e suspirou…E foi a coxear para a rua, passando por uma porta destruída, aliás, nem porta tinha, apenas restava uma passagem onde a única decoração eram buracos de balas disparadas pelos seus últimos inquilinos. Agora que os meus olhos se habituaram à escassa luz, já conseguia distinguir mais formas para além da janela, a noite no entanto não me mostrava muito, lentamente ia-me contando os seus segredos que desejava não saber, via prédios com fracas luzes que de tão fracas que estavam davam a entender que estava ali alguém a necessitar de auxílio, fumos saiam de janela e de quando a quando ouvia-se um tiro…
- Onde estou…? –

Fshhhhhhhhhhhhhhh –fshhhhhhhh ----fssss..!

Era o rádio de uma das pessoas que se encontravam comigo ali, era uma criança…Pobre criança que estava em tão mal estado, rota e cabelo oleoso segurava um pequeno rádio rosa que funcionava com energia manual. A menina deu mais um impulso no manípulo e voltou a tentar a sua sorte de novo, mas só se ouvia estática, nenhuma voz… e por mais que se sintonizasse uma estação não apanhava nada, AM ou FM, nada. A pequena rodinha cansada de andar para trás e para a frente gritava bem alto que não conseguia cantar, nenhuma estação estava a transmitir e isso reflectiu-se na pessoa que manipulava o rádio ao deixar cair uma lágrima em cima do mesmo, uma atrás de outra até se deixar cair sobre o pequeno transístor e começar a chorar mais alto. Abraçada ao rádio rosa poeirento a criança soluçava e olhou para mim como se estivesse a morrer…
- Não dá música… - Disse com duas lágrimas.

Um comentário:

Anônimo disse...

Deixa-me já dizer que a tua escrita é muito boa, as tuas descrições não são monótonas, usas recursos estislísticos que a enriquecem e a história é super cativante!

então esta parte final do post, com a menina a chorar, comoveu-me ;____;