sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Dia um: The show must go on.

- Mãos à obra pessoal. –

Dizer isto serviu-me de alento para começar a trabalhar naquela que seria um dos trabalhos mais estranhos que tinha feito até agora. Nem se tratava das divisões em si, isso era normal e necessário? Sim, necessário…Mas o porquê de o estar a fazer, à pressa, calado e ordeiramente junto com pessoas igualmente sujas como eu com armas a tiracolo, escapava-me completamente. Isto roçava o limiar do ridículo! Eu já tinha ouvido falar de sonhos lúcidos, mas lá podemos voar, comer até cair e ter as miúdas que queremos, mas não se passava nada disso aqui, portanto meu caro André sê célere e acaba lá o teu trabalho, com a tua arma a tiracolo.

Antes de mais nada havia que racionalizar o que existe para depois se proceder a uma divisão de bens bem equacionada, medicamentos, sobretudo analgésicos deviam ficar com os que aguentavam o forte, enquanto que as armas de maior poder deviam ir para se poder abrir caminho. Ainda demorámos o nosso tempo, pois estávamos a lidar com coisas pesadas, algumas frágeis e tínhamos de ser mais silenciosos que um rato. Alguns bons minutos depois terminámos e agora que estava tudo nos conformes, tínhamos de dar as instruções para os que ficavam.
- Precisamos de médicos – Dizia um dos ajudantes que se levantara após ter trancado os medicamentos.
- De médicos e de uma M249, vamos montá-la ali na janela, temos uma boa linha de visão e poderei dar-vos cobertura ainda um bom bocado.
- Afirmativo, Patrícia dá-lhes uma "Rambo" e vê se fica bem montada, conta as munições e atribui postos de comando, se faz favor. –

Respondeu um soldado virando-se para a Patrícia, pelos vistos ignorou-me, ainda bem, sei lá eu o que é uma M246 ou uma "Rambo", acho que deveria sair daqui bem devagarinho, não vão eles de se lembrar de me pedir para conduzir ou raio que os parta.
- André! - Chamou-me o mesmo soldado.
- Venha cá se faz favor, tenho algo para lhe dizer – Mas que cordialismo e tanta educação, o que ele quer agora de mim?
– André, ainda tem o seu CB? - Perguntou ele.
- Um...CB? - Boa, agora é que são elas...
– Citizen's Band ou um walkie talkie, como quiser chamar –
– Ah! Esse CB! - Apalpei a minha cintura e sim, na verdade estava lá, um pouco sujo de lama e de utilização duvidosa, mas está lá.
- Tenho, porquê? -
- Falemos baixo então, chegue-se aqui por um momento, ninguém deve ouvir o que temos a falar. Como sabe a maioria dos CB estão sem bateria e o seu está praticamente cheio, sei disso porque raramente o usou e só o guardou porque era do seu pai, mas agora vai ter de o usar. Eu vou ficar aqui e vou usar o que resta do gerador para ficar em contacto consigo, porque todo nós sabemos que esta divisão foi um acto suicida, eles acabarão por nos encontrar e não é a arma na janela que os vai aguentar, nem isso, nem as rezas ao nosso Senhor, portanto vocês deixam estas caixas marcadas e partem com o resto... –
– O quê? Mas e os que ficam? E o que está nestas caixas? - Estava estupefacto com este desenrolar da história, sair daqui como estivesse a fugir? Deixar esta gente para morrer? Questões e mais questões palpitavam na minha mente de cão cobarde e sem querer, calei-me e acatei tudo aquilo como uma ordem.
- As caixas senhor, estão praticamente vazias, sobram apenas algumas armas e os seus carregadores, a M249 e morfina para se aguentarem nestas últimas horas e uma Bíblia. Eu próprio tomarei conta da M249 e irei dar-vos cobertura o máximo que puder e a noite permitir, quando saírem de vista irei distribuir a morfina por todos a todos e por fim, uma bala e rezas a cada um, eles sabem o que fazer, quer dizer, a maioria, mas juntamente com a Bíblia irei fazer com que aquelas pobres almas cheguem ao reino do Senhor, absolvidas dos seus pecados, como fazia antes nos meus tempos de capelão. –

A sua expressão tinha mudado, estava mais sério e um pouco triste. Ele estava pálido como cal, o que se passava com ele?
– E o que você vai fazer com os que não acatarem esta decisão? - Perguntei.
- Não direi nada a ninguém, fui mordido, veja...Não viverei por muito tempo, mas ainda poderei fazer mossa naqueles hereges! –

Meu Deus, a repulsão que senti naquele momento quando ele puxou a manga para cima, uma enorme ferida coagulava no seu braço esquerdo, o sangue seco tomava uma cor acastanhada de metade crosta metade carne que ainda pulsava devido à fraca circulação sanguínea.

- Nojento não? Ando a viver à conta de morfina e de outras coisas e pronto, se fosse uma ferida normal já devia ter sido amputada ou ainda posso morrer de gangrena...Enfim, foi feita no dia de ontem, à entrada da cidade quando os encontrámos, tropecei num corpo de uma senhora e um caiu em cima mordendo-me o braço, mas ainda me safei espetando um vidro que agarrei no chão directamente no olho do filho da puta! Perdoai-me Senhor –
Benzeu-se perante tal blasfémia, cobrindo o braço. Olho para mim e uma lágrima escorreu-lhe pela cara enrugada, marcada pelo tempo e pela guerra. Cada ruga parecia assemelhar-se a uma trincheira de combate e muito deve ter combatido aquele pobre homem de Deus, pois na sua cara reflectia-se a cara de muita gente que morreu nas suas mãos, muita gente sem absolvição ou sem os pecados confessados. Este homem era um santo e sabia que ia parar ao Inferno, mas ele era um santo…
Mas mesmo assim, não conseguia enfiar na minha cabeça o que ele estava a dizer! Era absurdo!

- Meu deus homem, o que está aí a dizer? Barbaridades! E a criança?! - Estava claramente enojado perante aquele cenário repulsivo e revoltado pelas mortes que haveriam de cair nas minhas mãos.
- Cale-se e faça o que digo! Irá salvar mais gente, iremos atraí-los para aqui para vocês terem mais hipóteses de fugir. Corram para a BA6 e apanhem o helicóptero e uma vez no ar, fujam para longe, talvez uma das ilhas...Você não pode morrer, vá, vá-se embora! A Patrícia está a chegar, não fale com ninguém e mantenha a frequência do seu CB no canal 1.
E não se preocupe com a menina, ela não sofrerá, disso eu prometo-lhe –
- Filho da puta! –
Sem saber o que fazer, recorri à resposta mais primitiva e animal que me lembrei. Soquei-lhe com todas as forças que tinha na face deitando por terra os seus pequenos óculos meia-lua intelectuais. Ele nem reagiu, olhou para mim e sorriu, benzeu-me e retirou-se pacificamente assim que a Patrícia entrou na sala com o jovem rapaz da camisola desportiva dos NY. Estava estupefacto e ainda não sabia o que se passava ali, dentro de horas ia-se dar um ritual de suicídio em grupo e eu não podia fazer ou dizer alguma coisa em prol dos que iam comigo.
- André, vamos? Estamos todos lá fora à tua espera... –

Chegou a hora de ir segundo ela, avante para a rua onde algo me diz que a viagem vai ser muito grande e atribulada. Pego na minha arma que estava agora encostada a uma parede e saio porta fora em direcção ao desconhecido.

*

Passou já trinta minutos desde que saímos e ainda via o prédio ao longe, iluminado com a sua débil luz do Petromax, mas estava tudo tão silencioso, demasiado silencioso... Quando disseram que as ruas estavam obstruídas não estavam a brincar, eram filas e filas de carros abandonados com malas de todos os tamanhos e feitios e todas a abarrotar, carros com coisas fúteis de sobrevivência como portáteis e guarda-jóias, alguns carros ainda tinham alguns cadáveres, imóveis quanto o tempo em si e jaziam ali no que era agora os seus túmulo. Além dos muitos carros era visível toneladas de destroços dos muitos prédios das redondezas, era vidro no chão e bocados de parede que se espalhavam e dificultavam a passagem ao nosso blindado que vinha mesmo atrás de nós, a nossa única fonte musical no meio desta desolação psicológica, tocava os Queen, boa escolha de banda, motivadora, não?

A viagem até se estava a fazer bem, calma e serena, ninguém falava uns com os outros, talvez por quererem estar mais atentos e prontos para qualquer emboscada
Estava sempre atento ao meu CB e massajava a minha arma enquanto me ordenava para calar, pois estava a ferver dentro de mim uma vontade enorme de fazer aquelas questões, mesmo parvas, sabem? Do género, quem são os nossos inimigos, etc. Mas calei-me, não iam eles pensar mal do seu suposto líder.

A noite já ia alta e já tinha perdido o prédio há uns bons minutos, estava ainda mais nervoso e o CD dos Queen a tocar não ajudava nada mesmo...porém, a minha atenção mudou e virei-me para o engarrafamento de carros, vira alguma coisa num carro a mexer-se e pus-me no seu encalce, andei muito devagar com a arma em punho para qualquer emergência, dois homens seguiram atrás de mim com uma lanterna e pé ante pé lá fomos devagar até que consegui vislumbrar uma forma humana a contorcer-se no carro! Presa apenas pelo cinto de segurança.
- Está alguém lá dentro! Corram, ajudem-me! - Gritei enquanto atirava a arma para o lado e corria para o carro.
- André! Para! É um deles! André! - Gritava Patrícia desesperada para que eu parasse, mas era tarde demais.
Tinha já enfiado os braços dentro do carro, estendidos para a pessoa presa afim de ajudar, mas em vez de se regozijar pelo salvamento fincou-me os dentes no braço, a pontada aguda fez com que desse uma cabeçada no tecto do carro. Afastei o braço com dificuldade, mas só porque a pessoa sentada estava presa com o cinto de segurança e isso impedia-a de se atirar a mim, mas não a impediu de tentar com os seus braços estendidos para mim, a sangrar da boca. Que fui eu fazer? Este “ser humano” olhava e guinchava na minha direcção tentando-se soltar a todo o custo e lançar o seu corpo decomposto sobre mim, devia estar ali há já alguns bons tempos, pois fedia a merda e a podre, com pedaços de pele a caírem-lhe da cara e os ossos do externo partido pela força infligida ao tentar-se soltar do seu assento.
Mas um cinto de segurança salva vidas, não a dele, mas a nossa…Mea culpa, errei e agora tinha perdido um pedaço ainda grande de carne, mas devido à adrenalina ainda não sentia nada.
- Merda André! Que merda foste fazer? Porra –

Ela estava mesmo fula comigo, deu-me um enorme chuto na perna e saltou para o carro dando uma coronhada na pessoa lá dentro ouvindo-se um oco esborrachar seguindo-se de um silêncio de morte, todos ali foram ter comigo com aflição no peito e eu sangrava muito do braço, estava atordoado, mas ria-me...
Após terem me colocado uma ligadura e discutiam sobre o que fazer comigo, o CB começou a dar estática, estaria na hora? Com alguma dificuldade motora, peguei nele e levei-o ao peito para ouvir melhor...

– "ANDRÉ! ANDRÉ! Meu Deus, estás-me a ouvir? Está alguém a ouvir? Eles estão aqui! Não os consigo manter afastados por muito mais tempo, perdi a visibilidade da janela e mudei de sitio, mas eles apareceram antes da arma estar montada!
Não os consigo proteger durante muito mais tempo!

Estava tudo concentrado em mim a ouvir à locução da tragédia presente, entre este pedido de ajuda ouvia tiros e gritos pela rádio. Ao pé de mim estava tudo assustado a olhar uns para os outros com cara de aflição. Alguns começaram a discutir para voltarem, que tinha sido um erro sair! Olhavam para mim, sabiam que estava de conluio com o capelão mordido, não valia a pena guardar represálias agora…

-"André! Responde! Oh não, ficámos sem balas cá embaixo! Nada os vai parar agora, cá em cima só temos os revolveres, mas estão todos incapacitados por causa da morfina! André! André porra! ELES ENTRARAM!"
Estás-me a ouvir? Vou fazer aquilo que combinámos, tem de haver tempo! Fujam! –

Deixaram de falar e passou-se a ouvir só gritos misturados com disparos, gritos agudos que suplicavam por ajuda faziam-se ouvir como uivos dolorosos ao luar, vidros a estilhaçar e mais disparos era tudo emitido para uma multidão horrorizada, eu tentava imaginá-los dormentes com a morfina a falhar os seus tiros, escorregando e caindo no chão, serem apanhados pelos seus inimigos e finalmente abafados da sua vida, ao menos não sentiram muito...Espero...

Paz às suas almas...


"André, os outros já foram, estão em paz...e fiz o que prometi, não me odeies, pois ela será aceite por Deus nos seus braços e lá terá toda a sua música, estava feliz a petiz. Falto eu agora. Nunca me apanharão! Ouviram? André, não voltes...não vale a pena! Eu tomo conta de tudo, sério...

Só falta eu ir, um último carregador. Tem o meu nome escrito, tem a bênção de Deus! Venham cá seus hereges! Venham! Satanás comanda-vos, mas Deus está no meu lado!" –

Estava-se a rir o homem, demente do medo e de loucura descarregava bala atrás de bala, até que desistiu...Rezou em toda a sua glória divina e com toda a calma possível e silêncio...

– "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam Senhor! Ámen...André...toma conta de todos…"

Fshhhhhhhhhhhhhhhhhhhh------[…]

Foi a ultima voz humana que ouvimos pela rádio e esta foi seguida de um último disparo, agora só se ouvia gemidos e passadas pesadas...e por fim só estática.
– Alguém me diz o que raio se passou ali?! Quem os atacou?! Porra! –

Estava furioso e a dor que começava a sentir ajudou à minha raiva. Estava a ficar dormente quando comecei a ouvir ruídos ao longe e com os ruídos vinha um cheiro a podre, o mesmo cheiro do carro que era transportado pelos ventos da noite, parecia que alguém não tomava banho há dias, anos!
– Homens, armas em riste! Agora é a nossa vez! André, sentes-te em forma? -
Agora, a Patrícia tomava as lides do combate e comandava o pelotão de jovens soldados apenas munidos de medo e poucas balas e finalmente eles apareceram ao longe, sem qualquer forma distinguível na noite, ouvia-se apenas o seu hino em uníssono, o seu gemido sem vida ecoava pelos destroços da cidade e ao mesmo tempo destabilizavam os pobres rapazes que começaram a tremer, uns a chorar, mas todos mantiveram-se firmes à minha frente. Então não os conseguia ver bem pois a minha visão estava a turvar, apenas sei que estes cambaleavam e aproximavam-se de braços em riste, esticando-se na nossa direcção com o seu grito de guerra lento e ensurdecedor. Pouco mais conseguia distinguir, passou tudo tão rápido ou tudo tão devagar que a minha morte lenta não deixava acompanhar, eles vinham de todos os lados e lançavam-se sobre nós como uma leoa ataca a sua presa, não conseguia ver mais por causa dos flashes das metralhadoras, mas pouco a pouco iam diminuindo e um a um tombavam por terra assaltados pela morte fedorenta do nosso inimigo.
Ironicamente a música "The show must go on" dos Queen tocava, mas o espectáculo terminava ali, para mim e para os meus camaradas, o rapaz que me acordou acabou por adormecer, caiu mesmo ao meu lado batendo com o pescoço no passeio, partindo-o, morte instantânea para o rapaz que não sentia agora uma mulher de avançada idade a arrancar-lhe o nariz enquanto que ainda esperneava. A Patrícia aguentou-se valentemente, mas uma bala perdida de outro mártir atirou-a ao chão, outra vazou-lhe o ombro e esta deixou-se cair de costas dando assim uma excelente oportunidade a uma família de quatro cair sobre ela às dentadas, já cego ouvi até ensurdecer os seus gritos de dor e depois qualquer resistência parou....Deixei de sentir dor…

[…] Another hero, another mindless crime
Behind the curtain, in the pantomime
Hold the line, does anybody want to take it anymore
The show must go on… […]

Um comentário:

Anônimo disse...

rapaz, arrepiaste-me mais que duas vezes neste "capitulo"
como já te disse, descreves de tal forma a situação que me parece estar lá. é tão vívido.

eu a querer dizer mal de alguma coisa, mas tu não me deixas, está bem construída e eu cada vez mais "agarrada" à histótia...ainda fico que nem uma drogada pah!

ah, e "The Show Must Go On!" brutal!