domingo, 16 de março de 2008

Dia cinco: No Escuro

Não preguei olho a noite toda.
Em cima da cama desfeita por alguém que esteve naquela cela antes, balbuciava palavras sem sentido, blasfémias em surdina para o ar. Amaldiçoava todos aqueles que me tinham posto atrás daquela cortina de sombras, por me terem vestido a farda riscada.
“Ignorantes” Pensava, não tinham a noção do que se tinha passado! Apesar da minha acção ter sido uma gota de água num oceano ainda maior do que estava para vir, tinha salvo as pessoas naquela barco de um destino pior que a morte. Tinha morto alguém, tinha morto milhares de pessoas em videojogos, tinha visto as mortes mais nojentas e torturas na televisão e na internet, pensava que estava habituado para qualquer coisa…Estava tão errado, ri-me, tinha morto um ser humano…tinha morto a minha inocência, a minha sanidade. Não chorava, ria-me, tentava me lembrar do momento em que saltei do meu banco, de quando agarrei no arpão, quando trespassei aquelas duas cabeças…
Ajudou o facto de elas estarem moles, um estava morto à pouquíssimo tempo e outro estava a morrer…foi terrivelmente fácil, como uma metáfora que até poderia ser engraçada e levar às lágrimas de tanto rir, ter sentido a minha adrenalina a guiar a minha arma, a perfurar a cabeça de um lado ao outro, foi mesmo tão fácil e tão doloroso…Nem é uma questão de decidir quem morre ou vive, não é brincar a Deus ou algo do género, eles estavam mortos e isso não os impedia de nos atacar, alguém tinha de fazer algo e coube-me a mim ser o juiz e o carrasco. Foi horrível, senti-me um animal, quis vomitar, quis gritar, tanto sangue…
Lembro-me de durante a minha estadia naquela cela, não proferi quase nenhuma palavra, o que contrariava a minha natureza extrovertida e faladora. Não pedi por misericórdia nem clemência.
Sentado no escuro permaneci no meu transe hipnótico, olhava sempre em frente para a parede da cela que estava na minha direcção, absorto nos meus pensamentos confinava-me noutra prisão. Refugiei-me no canto mais escuro da minha mente, de lá encolhido num canto húmido conseguia ver os cadáveres dos que tinha morto no barco, ainda em cima um do outro, jaziam quietos sem se mexer. Admirava de uma ponta a outra as carapaças humanas vazias de alma, pequenos bonecos de trapos que jaziam inertes diante de uma figura que tremia num canto.
Estava escuro e apenas uma linha de luz luzia naquela cela mental, directamente do céu incidia na cabeça dos corpos, Deus fazia questão de me lembrar do meu pecado. “Não matarás”, tinha-o feito, foi fácil, bastou a eternidade de um segundo, foi o quanto levei a pegar no arpão. Foi…arghhh, pára, pára! A luz mostrava-me agora o arpão espetado nas cabeças, abanava, torcia-se. Conseguia ouvir a carne a mover-se dentro das cabeças…
Como fui capaz de matar alguém? Como? Não era capaz de viver mais comigo, estava a enlouquecer e de repente aquela cela começou a entranhar-se em mim. Merecia aquilo, o meu castigo estava-se a tornar justo, fiquei com sono. Aninhei-me na cama suja, ajeitei a almofada. Sorri. Matei duas pessoas.
Senti-me bem...

2 comentários:

something disse...

Psicopata : |

zzgnts disse...

Blaze, seu fucking psycho! N te cansas de usar o adjectivo "Dantesco"?